— Vá embora, vá agora!
No meio do empurra-empurra, ambos acabaram completamente encharcados. A água gelada açoitava Clarice, provocando-lhe calafrios pelo corpo inteiro.
Os olhos de Erasmo estavam tomados de sangue.
Clarice ficou em estado de puro terror.
Apertando os dentes, atirou-se impulsivamente sobre o corpo de Erasmo, ignorando os esforços dele para afastá-la.
— Erasmo, eu serei o seu antídoto, não quero que nada de ruim te aconteça! — suplicou Clarice com urgência e a voz embargada pelas lágrimas.
Erasmo hesitou por um segundo, com um brilho piscando em seus olhos rubros.
— Não, eu não posso fazer isso com você.
Ele tentou afastá-la novamente, mas Clarice se agarrou a ele com todas as suas forças.
— Não tem problema, eu não me importo. Só quero que você fique bem.
— Mas você é como minha irmã, eu não posso fazer isso com você.
— Nós nem somos irmãos de sangue. Eu realmente não me importo, só não quero que algo de mau te aconteça.
— Erasmo, por favor, não morra, eu só tenho você no mundo.
Clarice passou a chorar com ainda mais desespero.
Erasmo a empurrou de leve, criando distância suficiente para que ela pudesse observá-lo com clareza, permitindo também que ele enxergasse o fundo dos olhos dela.
Segurando os braços de Clarice com firmeza, Erasmo a fitou com um olhar sombrio e devorador, observando as lágrimas no rosto da mulher.
— Clarice, tem certeza de que não vai se arrepender?
— Eu não quero que nada aconteça com você. — disse Clarice, assentindo veementemente.
Vendo que ele ainda hesitava e notando o sangue voltando a escorrer pelo canto de sua boca, Clarice tomou uma decisão.
Clarice baixou a cabeça num impulso e beijou o homem, interrompendo o que ele pretendia dizer.
O beijo de Clarice era inexperiente e carecia de qualquer técnica.
Foi apenas o encontro desajeitado de seus lábios.
O corpo de Erasmo enrijeceu instantaneamente ao sentir a mulher que amava entregando-lhe um beijo.
Acrescentando o álcool e o efeito alucinante da droga, o pouco de sanidade que lhe restava desmoronou completamente.
— Clarice, vou te dar uma última chance. Se você quer ir embora, vá agora. Se não for, eu não conseguirei mais me segurar. — murmurou Erasmo num tom rouco, com os lábios ainda unidos.
A luz cintilante projetava silhuetas tremulantes enquanto os lençóis debaixo dela eram apertados e enrugados por suas mãos.
Seus dedos dos pés bem contornados se encurvavam levemente, sem um lugar para repousar.
Até que, enfim, foi acolhida de novo num abraço aconchegante.
Nas costas do homem, haviam surgido novos arranhões ensanguentados.
Quando o céu começou a clarear, o quarto mergulhou num silêncio profundo. Nele restava apenas a delicada mulher na cama, desmaiada de pura exaustão.
E o belo homem, que não havia pregado o olho, sustentando nos lábios um sorriso de total satisfação.
Erasmo abaixou a cabeça e beijou a testa de Clarice, afastando delicadamente os fios de cabelo grudados pelo suor.
— Clarice, minha Clarice.
— Erasmo, o efeito da droga já passou, né? Eu realmente não aguento mais. — resmungou Clarice sonolenta, com os olhos ainda fechados.
Após isso, não houve mais qualquer som.
Erasmo esboçou um sorriso brando, os olhos transbordando de uma adoração incondicional.
Pegando-a nos braços, ele providenciou a limpeza necessária. Após deixá-la arrumada, acolheu-a novamente em seu peito e caiu num sono tranquilo.

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