O grito alto de Sofia assustou tanto Laís quanto Clara, que ficaram paradas sem reação. Instintivamente, elas viraram o pescoço para averiguar a fonte.
Bem diante delas e a poucos passos, via-se Sofia enfiada em um longo vestido florido. Em uma de suas mãos agitava-se freneticamente uma guia de gravidez. Sua fisionomia parecia a ponto de transbordar puro ressentimento, cravado em cada poro de seu rosto.
Ela encurtou a distância entre elas e empurrou aquele atestado de gestação bem na palma da mão de Clara.
— Não era um filho do Jorge que você vivia me cobrando? Toma, leia com os seus próprios olhos. A gestação já está batendo os dois meses. Desta vez é cem por cento do Jorge, palavra minha!
Ao concluir sua fala afiada, Sofia engatilhou seus dedos para o pulso de Laís e tentou arrancar brutalmente a dita Pulseira de Esmeraldas à força.
Esse ímpeto pegou Clara e Laís completamente de calças curtas. Era simplesmente incompreensível e ridículo.
— Sofia, tu deve estar doente da cabeça, só pode!
— Em vez de obstetrícia, a clínica certa para você se internar era em um hospício psiquiátrico!
— Mesmo se todas as mulheres do mundo morressem, nosso Jorge jamais voltaria para você, muito menos faria um filho em você!
Clara, com seus reflexos sagazes, engatilhou sua mão, travando o braço alheio, e catapultou a audaciosa mulher num solavanco brusco para longe.
Ao mesmo tempo, ela não pôde evitar xingá-la de forma impiedosa.
Desde que Laís e sua mãe haviam-lhe aberto os olhos e ativado sua fúria protetora, ela se abdicou feroz e definitivamente daquele incômodo conceito de "decéncia".
Essa mulher é uma mentirosa descarada, merece ouvir toda a verdade na frente de todo mundo.
O bote certeiro abalou o balanço de Sofia que escorregou e esteva quase de encontro ao chão, por pura sorte agarrando as paredes.
A atitude ferrenhamente protecionista com Laís, justaposta à rudeza glacial frente à ela própria, incitou em Sofia uma inveja ainda mais raivosa. Engatilhou o seu dedo no rumo de Laís:
— Clara Campos, eu não entendo, que merda!
— O que essa Laís tem de tão bom para que todos vocés corram atrás dela como se fosse a melhor coisa do mundo?!
— Acho que você e o seu filho foram enfeitiçados por ela!
— Ela é mais bonita do que eu? A família dela é melhor que a minha? Além disso, é divorciada e ainda tem um filho para criar sozinha!
— Olhem bem, pessoal! Esta mulher é uma famosa professora do departamento de língua portuguesa da universidade local, e também é a minha ex-sogra!
Ela agitou o teste de gravidez nas mãos: — Mas agora que eu estou grávida, a família dela não apenas se recusa a assumir a responsabilidade, como ainda quer trazer essa mulher divorciada e com um filho para dentro de casa!
— É isso o que uma suposta professora renomada faz! Digam-me vocés: isso não é um absurdo? Não é nojento?
Como Sofia não tinha mais em quem se apoiar, resolveu simplesmente espalhar boatos infundados e causar problemas do nada.
Desde o divórcio, ela bateu de frente com uma parede após a outra. Após enfrentar uma série de reveses e dificuldades, ela finalmente percebeu que aqueles anos vivendo com a família Andrade haviam sido, sem dúvida, o auge de sua vida.
Antes, na família Andrade, ela tinha tudo o que queria. Os sogros atendiam a todos os seus caprichos e o marido lhe dava dinheiro e recursos sempre que solicitava.
Ela pensava que merecia tudo aquilo e, por isso, nunca sentiu um pingo de culpa.
Mas agora, depois de ser duramente espancada pela sociedade e pela crueldade da realidade, ela compreendeu.
A família Ramos que a criou, a família Vasconcelos que sempre a tratou bem, e a família Siqueira que a reconheceu mais tarde, na verdade... nenhuma dessas famílias chegava aos pés da família Andrade.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Segunda Vida da Senhora Laís