Era Jorge Andrade.
Ele havia ficado sentado no carro por um longo tempo e, no fim, pediu ao seu assistente para remarcar o voo.
Os gritos e choros de Sofia ecoavam em sua mente. No fundo, ele se recusava a acreditar que uma mãe seria realmente capaz de dar soníferos a um recém-nascido, apenas porque o choro da criança atrapalhava o seu sono.
Seria possível que houvesse mesmo um mal-entendido?
Após um longo silêncio, ele retornou ao hospital.
No entanto, ao chegar à porta do quarto, quando estava prestes a abrir, escutou pela fresta a conversa de mãe e filha sobre a criança.
As repreensões de Viviane e o tom de indiferença de Sofia soaram como chicotadas, cortando impiedosamente o seu coração.
Ele olhou de longe através do vidro para Caio deitado na cama. Seu olhar tornou-se gélido e, finalmente, desviando a atenção, ele soltou a maçaneta, virou as costas e desapareceu silenciosamente pelo corredor.
Ao passar pelo quarto de Aline Monteiro, a porta estava aberta.
Embora também fosse um quarto com uma criança doente, a cena lá dentro era completamente diferente.
Ele viu Laís segurando o corpinho de Aline com firmeza, passando pacientemente uma toalha no rostinho dela vez após vez.
Aline vestia um conjuntinho macio da mais alta qualidade, estava impecavelmente limpa. O babador no seu pescoço era adorável, e até suas mãozinhas estavam protegidas com luvinhas para evitar que ela se arranhasse.
Era evidente que a criança recebia cuidados completos da mãe durante a doença, mas o que mais chamava a atenção era o olhar de Laís. Era um olhar de afeto tão materno que comoveria qualquer um.
Aquilo era uma mãe que amava o filho de verdade.
Por outro lado, desde que ele voltara ao país, Sofia mal havia pegado Caio no colo. Nunca havia trocado uma fralda dele, nunca dera mamadeira. Quando muito, brincava um pouco e logo se cansava, jogando o menino nos braços da babá.
Em casa, ou ela estava com máscaras faciais, se maquiando, provando roupas, ou grudada no celular assistindo a séries... Ele não havia visto um único vestígio de instinto materno em Sofia.
Jorge observou a cena em silêncio por alguns segundos. Não se aproximou para interromper e foi embora, com uma aura pesada o cercando.
Ao chegar aos elevadores, ele estava prestes a apertar o botão quando as portas se abriram. Quem saiu foi Felipe Vasconcelos.
Ele usava uma máscara N95 no rosto. Nos últimos dois dias, ele também havia tido uma febre leve e um resfriado, mas começou a melhorar após tomar a medicação.
Os dois deram de cara um com o outro. O olhar de Jorge era frio; o de Felipe, surpreso.

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