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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 97

“Esconderijo também pode ser começo.” — (Anotação de R.)

[Flashbacks de Renata — Chegada na Alameda Santa Verena]

Quando a porta da Casa dos Jasmins se fechou atrás de mim, o som ecoou como um ponto final — e, ao mesmo tempo, como a vírgula que antecede algo inevitável.

No fim de um corredor nu, sem tapete para amortecer passos ou memórias, outra porta se abriu. Guilherme me conduziu até um apartamento na Alameda Santa Verena.

O prédio não tinha nada de especial. Talvez fosse essa a sua força. Portaria sem brilho, um porteiro que parecia viver entre o sono e a vigília, e um elevador antigo que suspirava antes de decidir se nos levaria para cima.

Um lugar que passaria despercebido aos olhos de qualquer um da Casa. E era exatamente assim que precisava ser — invisível, seguro, quase inexistente.

Guilherme entrou primeiro, me puxando pelo pulso com firmeza, mas sem a pressa de fuga. A adrenalina berrava, mas por fora ele encenava normalidade: camisa por fora da calça, sacolas na mão, cara de executivo atrasado trazendo "a esposa" pela primeira vez.

— Terceiro andar — murmurou, apertando o botão com o nó dos dedos. — Ninguém aqui precisa saber quem você é. Nem que você existe.

O elevador gemeu, subiu aos trancos. O espelho manchado devolveu uma imagem que eu quase não reconheci: cabelo preso às pressas, rosto pálido, olhos enormes.

Na porta do 34, Guilherme parou.

Não foi pausa prática. Foi hesitação carregada. Como se a simples ação de girar aquela chave fosse revelar algo que ele nunca tinha mostrado a ninguém. Como se estivesse me entregando não um esconderijo, mas um pedaço dele.

A mão na maçaneta tremeu. Só um segundo. Mas eu vi.

E entendi, com clareza estranha e súbita, que aquele lugar significava algo para ele. Não era apenas imóvel comprado em nome falso. Era refúgio. Era o único lugar onde ele ainda podia ser quem realmente era, em vez de quem fingia ser.

E agora estava me deixando entrar.

— Pronta? — A voz saiu diferente. Mais baixa. Quase... vulnerável.

Pronta para quê? — pensei. Para dever a você? Para depender? Para carregar mais uma dívida que nunca vou conseguir pagar?

Mas apenas assenti. Porque entre opções ruins, essa era a menos pior.

Entramos.

...

O apartamento era simples.

E, inexplicavelmente, lindo.

Não no sentido estético de revista de decoração. Não tinha nada que merecesse foto ou elogio. Era o extremo oposto da Casa dos Jasmins — sem lustres de cristal, sem móveis de grife, sem tapetes que custavam mais que carros.

Era apenas... real.

Piso de cerâmica fria sob meus pés descalços. A sensação me ancorou no presente de forma estranha — real, concreta, sem camadas de luxo falso amortecendo o contato com o mundo.

Paredes claras, quase nuas. Sem quadros caros escolhidos por decorador. Apenas tinta branca, um pouco desbotada nos cantos.

Sala retangular pequena. Sofá de tecido cinza surrado, com marca visível de corpo no assento esquerdo — o lado dele. Onde ele se sentava à noite, sozinho, sendo ninguém.

Mesa encostada na parede com duas cadeiras. Pilha de papéis que ele empurrou rapidamente para o lado quando percebeu que eu tinha visto. Como se escondendo vestígios de vida privada.

Cozinha americana funcional. Poucos armários. Limpa, organizada, vazia demais. Ninguém realmente cozinhava ali. Era cenário de vida, não vida de verdade.

Corredor curto. Porta do quarto entreaberta — cama sem fazer, lençóis amassados, guarda-roupa barato de duas portas. Janela estreita dando para fundos de outros prédios. Vista de quem não quer ser visto.

Era esconderijo. Era ausência. Era lugar para não existir.

E ele estava me oferecendo isso.

Não sei se era salvação ou apenas outra prisão com paredes diferentes.

...

Mas então o cheiro chegou.

E meu corpo inteiro congelou.

Jasmim.

Não.

Não podia ser. Não aqui também. Não podia ter atravessado metade da cidade fugindo só para encontrar o mesmo cheiro que me sufocava naquela Casa maldita.

A náusea subiu. A respiração falhou. As mãos fecharam em punho involuntário.

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