“Fosse qual fosse a vida que me esperava do lado de fora daquela Casa, eu nunca mais ia ser a mesma.” — (Anotação de R.)
[...]
Ele entrou rápido, como quem sabe que está num lugar que não devia. Fecharam a porta atrás dele, e por um segundo o quarto pareceu ainda menor.
Ele estava diferente. Parecia cansado. Olheiras fundas, barba por fazer, a gravata desfeita no bolso
— Quanto tempo eu fiquei aqui? — minha voz saiu trêmula, antes que eu pudesse contê-la.
— Muito. — disse, sem hesitar. — Mas não tanto quanto você pensa. Alguns dias… menos de duas semanas. O tempo engole tudo quando não há janelas.
Ele avançou dois passos, mas parou — como se a minha fragilidade fosse um território desconhecido para ele, e qualquer aproximação errada pudesse me despedaçar.
— Eu vou te tirar daqui. — falou, já estou fazendo os arranjos.
Eu ri — mas não foi um riso bonito. Foi um som áspero, trincado.
― Aqui, até o Wi-Fi é um lembrete de poder: quem tem a senha decide quem fala e quem silencia.
― Na Casa dos Jasmins, as regras não estão escritas, mas todos as conhecem. Só há duas formas de atravessar o portão: sair deixando lucro… ou sair pela porta dos fundos, embrulhado em um saco preto.
Ele me olhou, e a voz veio carregada de um peso que não combinava com o pouco que eu conhecia dele:
— Confia em mim… só desta vez, Helena.
Eu me calei. Ele inspirou fundo, o peito se erguendo como quem reúne coragem para saltar de um penhasco sem saber se há água lá embaixo.
— Tem uma casa que eles não conhecem. — disse. — Não está em nenhum registro ligado à rede. Comprei em nome de laranja, antes de começar a trabalhar pra Aurélia. Nunca usei para o esquema. É limpa.
— E você vai me levar pra lá? — perguntei, tentando não deixar a esperança aparecer demais na voz.
— Vou — confirmou.
— Como? — perguntei.
— Você acha que vai simplesmente me pôr num carro e dirigir até lá? Eles têm câmera por todo lado, Guilherme.
— Nem tanto quanto acham — ele respondeu. — Eu conheço os pontos cegos. Eu faço parte desse sistema, lembra?
Ele se sentou na cadeira de metal, perto da cama, o joelho quase encostando no meu.
— Escuta — a voz dele desceu um tom, quase conspiratório.
— Hoje, às três da manhã, vai acontecer um apagão parcial. Manutenção interna, programada... mas não oficialmente divulgada. Eu vi a ordem de serviço com meus próprios olhos. Serão vinte e três minutos de “falha técnica” em parte do circuito. Não é o prédio inteiro, mas essa ala... está na lista.
— E você? Onde vai estar? — ela perguntou, tentando disfarçar o tremor na voz.
— Ele fez uma pausa, como se pesasse cada palavra. — Eu vou te tirar pela saída de serviço. Já fiz coisas piores para essa gente..., mas nunca para salvar alguém. Hoje é diferente. Hoje, pela primeira vez, vou usar meu conhecimento contra eles.
— No estacionamento dos funcionários vai um carro velho esperando, sem placa rastreável, sem GPS. Um fantasma sobre rodas.
Olhei para o teto, depois para os cantos, como se pudesse encontrar respostas nas sombras.
— A câmera… — murmurei, quase sem voz.
— Estão desligadas — ele respondeu, baixo, mas firme. — Só por cinco minutos. A enfermeira que finge não ver custa caro…, mas não tanto quanto a sua vida.
Meus olhos voltaram para ele.
— Por que você está fazendo isso? — perguntei sem rodeios.
Ele hesitou. O silêncio entre nós pesou.
— Porque eu te joguei nisso quando fiquei calado na primeira sala — disse, enfim, a voz carregada de arrependimento.
— Porque eu te pressionei para assinar aquele contrato mesmo sabendo que você não queria assinar.
― E, porque quando você me arrastou para o quarto numa tentativa desesperada de impedir que aquilo se concretizasse, não era apenas um documento que você queria inviabilizar… era a sua liberdade, o seu direito de traçar o próprio destino que você estava defendendo com unhas e dentes.
Guilherme respirou fundo, desviando o olhar por um instante.
— Agora… é minha vez de, pelo menos, tentar te devolver a sua liberdade.
O silêncio entre nós parecia mais pesado que o ar.
— E se eles te pegarem? — minha voz saiu num sussurro, quase engolida pelo medo.
Ele respirou fundo, como quem já havia aceitado o risco.
— Então o problema deixa de ser seu — deu de ombros, mas o olhar denunciava que não era tão simples. — Você já carregou fardos demais.
Levantou-se devagar, como se cada movimento fosse uma decisão calculada.
— Hoje. Três da manhã — repetiu. — Quando a porta abrir, você não pensa. Só vem.
Meu peito apertou, o coração batendo como se quisesse escapar.
— E se... não for você? — arrisquei, sentindo o frio subir pela espinha. ― Vou assim mesmo?

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