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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 89

“O perigo não está no que ele sabe. Está no que ele é capaz de me fazer lembrar.” — Anotação de R.

Cheguei à praça às 17h56.

O sol, já cansado, se arrastava pelo horizonte, espalhando um dourado oblíquo que parecia rir de mim — um riso lento, quase cruel.

O café abrigava apenas meia dúzia de almas dispersas: duas adolescentes de uniforme, inclinadas uma para a outra, dividindo um milk-shake como se o mundo inteiro coubesse naquele copo; um senhor escondido atrás de um jornal amarelado, virando as páginas com a paciência de quem não espera nada; e uma mulher de jaleco branco, o cansaço estampado nos ombros, talvez recém-saída ou prestes a entrar no Santa Albina.

Ele não estava.

Escolhi uma mesa externa, estrategicamente voltada para o hospital, mas com a rota de fuga clara pela rua lateral. Encostei-me à cadeira de costas para a parede de vidro, sentindo o reflexo quente do sol nas omoplatas. Era um hábito antigo — desses que a gente adquire quando aprende, cedo demais, que é preciso ver o que vem de todos os lados.

— Algo para beber? — perguntou o garçom, com um sorriso que parecia querer suavizar o peso do ar.

— Água com gás. Com limão. — A resposta saiu firme, e agradeci internamente por isso.

Ele se afastou, e eu me agarrei ao guardanapo como quem precisa de um pretexto para não encarar o próprio pensamento. Meus olhos buscaram a fachada do hospital do outro lado da rua. Aquele prédio já não era só concreto e vidro; era quase um personagem insistente na minha história, sempre surgindo nos capítulos mais difíceis.

Lembrei da capela silenciosa lá dentro, do cheiro de vela misturado ao de desinfetante, e de Marta — a voz dela ainda ecoando, carregada de uma culpa que parecia não caber em uma só pessoa.

Quando voltei o rosto para o café, o mundo pareceu se estreitar. Ele estava ali. Alexandre. De pé, a poucos metros, me observando com uma intensidade que fazia o resto do cenário se dissolver, como se só existíssemos nós dois naquele cenário.

Ele parecia mais magro. Ou talvez mais gasto. Havia um peso novo nos ombros, no jeito de andar. O homem que eu tinha visto antes era perigosamente charmoso — agora ele era isso e mais alguma coisa: cansado, como se carregasse várias vidas nas costas.

Os olhos, no entanto, continuavam os mesmos. Escuros, fundos, com aquele brilho irritante de quem observa tudo e guarda pra depois.

Ele se aproximou devagar, sem pressa teatral, sem sorriso sedutor de propaganda. Apenas se aproximou.

Quando chegou na borda da mesa, inclinou a cabeça:

— Posso?

— Pode sentar — respondi. — O resto continua valendo.

Ele sorriu de canto.

— Sem encostar. Sem sumir. Sem fazer truque de mágica no meio da conversa. Eu lembro.

Sentou de frente pra mim. O garçom apareceu como se fosse parte da cena.

— Pra você? — perguntou.

— Café. Preto mesmo — Alexandre disse, sem tirar os olhos de mim. — E, se tiver, um pedaço de torta de limão.

— Tem sim — respondeu o garçom, se afastando.

Ficamos alguns segundos em silêncio. Eu não ia oferecer cortesia. Ele parecia não se importar com o incômodo.

O cheiro chegou antes da consciência.

Uma nota sutil de jasmim.

Não era forte, não era evidente, mas estava ali — misturado ao sabonete, ao café que vinha da máquina, ao ar da rua. Meu estômago contraiu. O corpo reconheceu antes que a cabeça pensasse qualquer coisa.

Ele percebeu.

— Eu não uso mais esse perfume — disse, num tom quase clínico, como quem entrega um dado irrelevante. — Mas certas coisas se agarram à memória, mesmo quando a gente troca o frasco.

Senti a raiva e o medo subirem juntos, como duas correntes opostas se chocando dentro de mim.

— Parabéns — respondi, a voz cortante. — Você conseguiu acionar cada alarme do meu corpo só por estar sentado aí.

Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos com uma calma estudada, quase ensaiada. O garçom chegou com a água com gás, o café e a torta de limão. Alexandre agradeceu com um aceno mínimo, sem sequer erguer os olhos.

Só então falou:

— Eu sei que você não confia em mim. — A voz saiu baixa, sem peso aparente, mas com algo que parecia conter um mundo inteiro de intenções. — E você tem razão.

Fiquei em silêncio, sentindo o ar entre nós se tornar mais denso. Ele não desviou o olhar.

— Mas mesmo assim… — começou, e havia uma hesitação ali, como se cada palavra fosse escolhida a dedo para não ferir mais do que já estava ferido.

— Você me associa sempre a duas coisas: informação e invasão. Eu sempre apareço quando tudo está prestes a transbordar… e nunca entrego tudo de uma vez. Parece chantagem. Eu sei.

— Não parece — corrigi, sentindo o peso da palavra. — É.

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