“Algumas verdades não libertam de imediato — mas abrem a primeira fresta por onde o amor pode, enfim, entrar.” ― Diário de D.
🎵 Trilha Sonora Sugerida: “Pra Você Guardei o Amor” – Nando Reis e Ana Cañas,
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Enzo se afastou sem pronunciar uma só palavra. Confrontá-la? Não, não era o momento adequado. Ele simplesmente deixaria que ela continuasse com sua encenação, enquanto se preparava para o dia em que voltasse da suposta ‘cirurgia’. E então, quando o momento chegasse, os papéis do divórcio estariam prontos para serem assinados. Ele não pretendia dar margem para mais manipulações.
Graças a seu avô Lourenço, o casamento foi firmado com separação total de bens. Se eles se separassem, Victoria não receberia nada, e agora estava claro o motivo pelo qual ela mantivera a farsa por tanto tempo.
Enzo já cogitava se separar dela há um tempo, mas nunca planejou deixá-la sem nada. No entanto, agora via que sua generosidade teria sido um erro. A máscara dela havia caído.
♫ “Pra você guardei o amor que aprendi vendo os meus pais...” ♫
Será que ela nunca o amou? Será que, desde o início, só estava interessada no dinheiro da família Bellucci? Juntando todas as peças, era isso que parecia. Mas não pretendia perder mais tempo investigando o passado. Tanto tempo havia se passado, e nada mudaria o que já estava feito.
De repente, um pensamento o atingiu com força. Seu filho. Theo.
Quanto sofrimento ele deve ter suportado todos esses anos, crescendo sem o amor maternal que Victoria prometera dar a ele?
O único motivo pelo qual Enzo se casou com Victoria foi para garantir que seu filho tivesse uma mãe.
As lembranças o atingiram como uma tempestade densa e implacável naquele dia, enquanto ele saía do hospital, onde havia levado o filho para uma avaliação de saúde. Cada passo parecia mais pesado, como se o mundo ao seu redor estivesse desmoronando. Foi então que Victoria surgiu, como um farol em meio à escuridão, sua presença irradiando uma força inesperada.
— “Enzo, eu vou cuidar dele. Vou criá-lo como se fosse meu próprio filho. Você não precisa enfrentar isso sozinho.” — Sua voz era firme, mas carregava uma ternura que parecia envolver cada palavra.
Aquelas palavras, ditas no exato momento em que ele estava mais vulnerável, penetraram fundo, como uma âncora lançada em um mar revolto, e o desarmaram.
Enzo sentiu o impacto que Victoria desejava causar, mas também algo mais: uma esperança tímida, quase esquecida, começava a se formar. A ideia de Theo crescer sem uma figura materna era um peso que ele carregava silenciosamente, mas diante daquela promessa, algo dentro dele cedeu.
♫ “Pra você guardei o amor que nunca soube dar...” ♫
Foi o empurrão que ele precisava. Pela primeira vez em muito tempo, Enzo permitiu que seu coração se abrisse, reconhecendo que ela estava ali, não apenas disposta, mas determinada a ser parte de suas vidas. E, naquele instante, a tempestade começou a se dissipar, dando lugar a um horizonte onde a possibilidade de um futuro mais leve parecia, enfim, possível.
Enzo fixou os olhos em Gael, que permanecia ao seu lado, inquieto, dirigindo-lhe um olhar que parecia carregado de algo que ele não conseguia decifrar.
Por um instante, Enzo se pegou questionando: quanto ele realmente conhecia o próprio filho para afirmar que aquele comportamento era estranho?
A dúvida o atravessou como uma onda silenciosa, enquanto o espaço entre eles parecia se encher de um peso invisível. O silêncio se alongou, denso, até que Gael, com a voz trêmula e hesitante, finalmente o rompeu:
— Papai, eu...
Antes que ele pudesse continuar, Enzo, movido por um impulso quase instintivo, inclinou-se e o envolveu em um abraço apertado, como se quisesse protegê-lo de qualquer tempestade que estivesse se formando dentro dele.
— Vamos para o escritório. Quero conversar com você — disse, a voz baixa, mas carregada de uma ternura resoluta.
Com um gesto suave, indicou o caminho, e juntos deixaram o corredor, levando consigo o peso de palavras ainda não ditas, mas que já começavam a encontrar espaço para existir.

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