“Às vezes a gente tem que quebrar tudo por dentro para se reconstruir por inteiro.” — Caio Fernando Abreu
🎵 Trilha Sonora Sugerida: “Pra Você Dar o Nome” – 5 a Seco
“A dúvida é o preço da pureza / E é inútil ter certeza…”
...
Enzo ocupava a cabeceira da mesa como uma estátua de granito. Seu rosto sério e os olhos fixos em algum ponto distante pareciam alheios às súplicas de Victoria.
Ela insistia mais uma vez para que ele a acompanhasse na viagem ao exterior. Cada palavra que saía dos seus lábios parecia uma corda tensionada, prestes a se romper, enquanto o silêncio ao redor só aumentava a gravidade daquele momento.
A determinação dela oscilava entre uma força firme e uma vulnerabilidade disfarçada, numa tentativa de convencê-lo.
Enzo, por sua vez, ergueu uma barreira. Sua postura rígida e o olhar fixo eram um silêncio eloquente de sua recusa. Não havia hesitação, nem brechas: ele era o retrato da resistência. Victoria, como uma tempestade contida, tentava romper essa muralha, sua voz carregada de frustração e esperança ao mesmo tempo, mas sem conseguir mover o obstáculo que era Enzo.
A ausência de Lourenço, que alegara estar indisposto e preferira se recolher aos seus aposentos, parecia quase estratégica, como se ele tivesse intuído o confronto que se aproximava e optado por se afastar para manter a neutralidade. Sua falta era sentida, mas ninguém questionava; parecia que todos entendiam que sua presença só acrescentaria mais peso à tensão já insuportável.
“Theo”, como sempre, era uma figura invisível na mesa, um espectador que passava despercebido, cuja presença parecia não significar nada para Victoria.
Mas quem realmente estava ali, presente de verdade, era Gael. Com os olhos atentos e a expressão indecifrável, ele absorvia cada palavra, cada pausa, como se tentasse decifrar os subentendidos que pairavam no ar. Era como um espelho silencioso, refletindo a tensão que se acumulava entre todos ali.
O ambiente parecia vivo, pulsando com a energia de emoções contidas, enquanto a sombra do inevitável pairava sobre eles. A tensão quase tinha vida própria, circulando entre as pessoas, apertando o peito de quem ousasse respirar mais fundo.
Victoria interpretava com perfeição o papel de esposa dedicada e magoada, sua voz carregada de uma vulnerabilidade bem ensaiada. Mas Gael via além das palavras e sabia que, por trás daquela encenação tão convincente, havia uma estratégia cuidadosamente planejada.
Ela insistia com habilidade que Enzo precisava estar ao seu lado naquele momento tão importante, como se sua dor fosse motivo suficiente para mantê-lo preso a ela para sempre.
Mais uma vez, tentava convencê-lo, usando palavras medidas e uma voz que transparecia toda a sua fragilidade.
— Eu preciso de você ao meu lado, Enzo. Essa cirurgia pode mudar minha vida... nossa vida. Não é justo que eu tenha que enfrentar tudo isso sozinha.
Enzo suspirou, colocou os talheres sobre a mesa e, naquele instante, ela percebeu que não seria fácil convencê-lo desta vez.
— Já te expliquei, Victoria. Compromissos na empresa me impedem de viajar agora. Já desmarquei minha agenda de hoje para te levar ao aeroporto, mas… não posso fazer mais do que isso.
Victoria apertou os lábios, a mágoa transbordando em um gesto que parecia carregar um oceano de sentimentos reprimidos. O ambiente ao redor parecia se encolher, como se a própria tensão tivesse o poder de moldar o espaço ao seu redor.
Foi então que Theo, com sua voz infantil, mas cheia de uma coragem quase ingênua, decidiu quebrar o silêncio.
— Se eu fosse maior, eu te acompanharia, mamãe — disse ele, com uma doçura que parecia inocente, mas carregava uma profundidade inesperada. Era como se cada palavra fosse escolhida com uma intenção além da inocência.
Aquelas palavras, tão simples na superfície, foram como uma pedra jogada em águas calmas, criando ondas que se espalharam rapidamente. O rosto de Victoria se endureceu, seus olhos se estreitaram e a frieza tomou conta da sua expressão.
— Não me chame de mamãe — respondeu, num impulso.
Sua voz saiu cortante, carregada de uma dureza que parecia destinada a ferir. — Como se um pirralho como você pudesse me acompanhar...
As palavras saíram rápidas, afiadas como lâminas, mas mal tinham deixado seus lábios quando ela sentiu o peso esmagador do erro. Foi como se o ar ao seu redor tivesse sido arrancado, deixando-a exposta e vulnerável. A máscara que ela usava com tanto cuidado começava a rachar, revelando algo que ela preferia esconder.
Enzo, que até então permanecia em silêncio, deu um passo à frente, assumindo o espaço com sua presença. Seus olhos, antes calmos e observadores, agora brilhavam com uma fúria contida, mas bem evidente.
— Victoria! — Sua voz cortou o ar como um trovão, carregada de incredulidade e de algo mais profundo, misturado de decepção e dor. Ele a encarava como quem olha para uma estranha, alguém que ele não reconhecia mais.
O silêncio que veio depois não era vazio; parecia um abismo cheio de perguntas não feitas, mágoas guardadas, verdades que ninguém tinha coragem de encarar.
— Hoje não fui trabalhar para te ajudar com os preparativos da viagem, mas já estou me arrependendo disso — A voz dele era gélida, cada sílaba impregnada de um cansaço exasperado, como se carregasse o peso de uma longa batalha emocional.
Ele respirou fundo, como quem tenta segurar algo que ameaça escapar, e continuou, com uma firmeza que deixou o ar na sala mais pesado, a voz carregada de frustração contida.

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