Os passos de Kris pareciam ficar mais pesados a cada degrau que subia em direção ao quarto de Tessa, enquanto o coração martelava dolorosamente em seu peito.
"O que deveria sentir ao vê-la agora? O que diria? Nem sabia se conseguiria encará-la depois do que acabara de descobrir…"
Foi então que as memórias o invadiram, lembranças do instante em que segurou Tessa nos braços pela primeira vez, tão pequena, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão cheia de vida, enquanto o som do primeiro choro dela ainda ecoava em sua mente como uma das melodias mais doces que já ouvira.
Depois veio o primeiro sorriso, iluminando-lhe o rosto e fazendo o coração dele disparar; os primeiros passos, vacilantes, mas determinados, com ele sempre ali para ampará-la quando caía; e, por fim, a primeira vez que o chamou de "papai", um momento que ele acreditara que o acompanharia para sempre, mas que agora parecia uma piada cruel.
O peito dele se apertou, como se uma lâmina se cravasse mais fundo a cada lembrança. "Ela não era dele. Nenhum daqueles marcos pertencia verdadeiramente a ele…"
Ao chegar diante da porta de Tessa, Kris parou. A mão pairou sobre a maçaneta, trêmula, até que finalmente reuniu coragem para abri-la.
Enquanto Tessa se dedicava a desenhar no chão, atividade que vinha logo após o Lego entre as preferidas dela, Kris sempre a acompanhava com os olhos, maravilhado com o jeito como os dedinhos seguravam o lápis, como se cada traço tivesse o poder de sustentar o mundo.
— Kris. — Disse Boatemaa com um sorriso, ao notá-lo. — Que bom ver você.
O rosto de Tessa se iluminou ao encontrá-lo, e, deixando o lápis cair, correu para ele com os braços abertos.
— Papai!
Kris sentiu como se tivesse levado um soco no estômago, com os joelhos quase cedendo quando se agachou para abraçá-la, e, no instante em que os bracinhos dela se fecharam em torno de seu pescoço, a garganta dele se contraiu de dor, dificultando até a respiração.
— Senti tanto a sua falta, papai! — Exclamou a pequena, com a voz repleta de inocência. "Ela não fazia ideia, nenhuma ideia da tempestade que rugia dentro dele…"
Ele engoliu em seco, lutando para manter a voz firme.
— Eu também senti sua falta, meu amor.
Em seguida, beijou-lhe a testa, e o calor familiar da pele dela quase o desmoronou por completo.
Tessa, por sua vez, agarrou-lhe a mão, puxando-a com entusiasmo.
— Vem ver! Eu fiz uma coisa.
Conduzido até o quarto, Kris caminhou com passos de chumbo até que ela o fez parar diante de uma folha no chão com um desenho a lápis. Ele se sentou ao lado dela, tomado pelo entorpecimento, e fixou os olhos na imagem singela: três bonecos de palito, um homem, uma mulher e uma menininha entre eles, unidos pelas mãos.
— Essa é a mamãe. — Explicou Tessa, apontando para a mulher. — Essa sou eu. — Continuou, indicando a menina no meio. Então ergueu para ele os olhinhos brilhantes. — E esse é você, papai! Nós somos uma família feliz. Sempre… Seremos!
Kris sentiu o coração se despedaçar enquanto fitava o desenho, mudo por alguns instantes, pois ela acabara de cravar a lâmina mais fundo sem sequer ter consciência disso.
— Você gostou? — Perguntou Tessa, com a voz doce e esperançosa.
— Eu amei. — Conseguiu dizer, com a voz embargada, lutando para não desmoronar ali mesmo. "Se ao menos ela soubesse…"
— Eu te amo, papai.
Naquele instante, o mundo de Kris desabou, e, com o peito arfante, ele mal conseguiu sussurrar em resposta:
— Eu também te amo, meu bem.
Aquilo foi a gota d’água, tornara-se insuportável, por isso ele se levantou apressado, murmurou que voltaria em seguida e deixou o quarto antes que Tessa percebesse as lágrimas que se acumulavam em seus olhos.
No corredor, encostou-se na parede com as mãos pressionando a cabeça, e o corpo inteiro tremia com a intensidade das emoções que o rasgavam, enquanto a vontade de gritar e descarregar os punhos em qualquer superfície crescia, só para aliviar a dor sufocante que o corroía.
"Se ao menos não tivesse descoberto… Teria sido melhor se tivesse permanecido cego, o idiota que nada sabia, em vez de suportar agora uma dor tão insuportável…
Como puderam fazer isso com ele? Justamente aqueles em quem confiara tanto…
Sua mãe. Karen. Henry…"
O simples pensamento em Henry fazia a raiva invadir-lhe o corpo como lava ardente, fechando-lhe as mãos em punhos, já que o homem que chamara de melhor amigo, na realidade, passara o tempo todo rindo dele pelas costas.
Por fim, Kris se endireitou lentamente, enxugando as lágrimas que insistiam em cair, com a certeza implacável de que Henry teria que pagar.

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