— Você quer tocar, Lorena? Pode tocar o que quiser. A mamãe vai adorar de qualquer jeito. — Kellen piscou, surpresa, mas logo respondeu com um tom amoroso.
— O que foi? Agora não quer mais que eu toque? — Lorena assentiu, levantou-se e caminhou até o instrumento. Erguendo uma sobrancelha, olhou para Tânia, que ainda permanecia ali parada.
— Claro que não. — Reprimindo a hesitação e a surpresa que brilhavam em seus olhos, Tânia deu um passo para o lado.
Lorena sentou-se com a maior naturalidade e, em seguida, dedilhou as cordas de forma despretensiosa.
Um acorde forte e retumbante cortou o ar.
Uma nota forte e antiga ecoou no ar, emocionando todos os presentes.
Logo nos primeiros acordes, ficou claro o nível da maestria. Mesmo que Cristiano e os outros não soubessem tocar, sua capacidade de apreciar música era aguçadíssima. Imediatamente, todos exibiram expressões de absoluto choque. As pupilas de Tânia se contraíram a tal ponto que o sorriso em seu rosto quase desmoronou.
Conforme as mãos de Lorena deslizavam pelo instrumento, a melodia profunda e longínqua parecia arrastar todos para um mundo vasto e imemorial. Com as mentes à deriva na imensidão do céu e da terra, a passagem serena do tempo foi sentida, lavando cada corpo e alma até a mais pura limpidez.
Muito tempo depois que a música havia chegado ao fim, ninguém ainda havia conseguido se libertar do feitiço da melodia.
A única exceção era Tânia, que encarava Lorena com um misto de choque e inveja corrosiva.
Como aquilo era possível? Como uma delinquente ignorante, que fora maltratada a vida inteira e mal frequentara a escola, era capaz de extrair melodias de um nível tão extraordinário daquele instrumento?
— Não imaginava que você tocasse tão bem, Lorena. Gostaria de saber, com qual grande mestre você aprendeu a tocar? Se eu soubesse que era tão incrível, não teria passado a vergonha de tocar antes de você! — Quando Lorena lhe lançou um olhar desinteressado, Tânia apressou-se em abaixar os olhos, forçando um sorriso nos lábios.
— Mas qualquer um que tenha mãos consegue fazer isso, não é? Desde quando é preciso aprender? — Dedilhando as cordas ao acaso, Lorena abriu um sorriso de canto.
Ao ouvir aquilo, o rosto de Tânia mudou de cor repetidas vezes.
— Hoje eu vi que há pessoas realmente talentosas por aí! — Quirino ergueu os polegares em sinal de aprovação, completamente deslumbrado.
Kellen e Cristiano trocaram olhares. Em seus olhos brilhavam choque, alegria e uma leve pontada de confusão.
Por que não havia sequer uma menção no relatório de investigação de que as habilidades musicais de sua filha eram tão impressionantes?
A manipulação não era absurdamente óbvia, mas qualquer um que a ouvisse sentiria um espinho cravado profundamente no coração.
Infelizmente para Tânia, embora Lorena tivesse curiosidade sobre seus pais de sangue, nunca nutrira grandes expectativas em relação a eles.
Além do mais, a garota sabia muito bem que a emoção nos olhos dos dois não era fingimento.
Eles claramente amavam aquela filha que estava perdida e acabara de ser reencontrada.
— Sabe de uma coisa? Em vez de chás doces que só enjoam, eu prefiro uma limonada forte. É azeda, mas desperta a mente e não causa náuseas. — Lorena abriu um sorriso de lado, medindo Tânia de cima a baixo.
— Lorena, acho que não entendi muito bem o que você quis dizer... — O sorriso de Tânia congelou.
— Por causa deles, vou te dar um aviso. Não tente arrumar problemas comigo, ou você vai se arrepender amargamente. — Lorena soltou uma risada inescrutável e passou direto por ela, caminhando na direção de Kellen, que já acenava. Antes de se afastar por completo, Deixou esse aviso sério pairando no ar.
Encarando as costas da garota que se afastava, Tânia manteve o mesmo sorriso doce de sempre. Contudo, em seus olhos, formou-se uma sombra de crueldade capaz de gelar o coração de qualquer um.

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