Ponto de vista de Riley
O tapa veio com o vento.
Rápido. Cruel. Preciso.
Zara não estava segurando. Não havia um pingo de vergonha, nem mesmo com metade da elite da Matilha do Norte ao redor. Ela pretendia me derrubar na frente de todos, para lembrar a todos que, aos olhos dela, eu não passava de uma cadela desobediente e ingrata.
O ar engrossou quando um suspiro coletivo percorreu a multidão. Eu podia sentir cada olhar afiado, cada respiração contida, antecipando o golpe.
Mas ele nunca chegou.
A mão de Duke pegou a dela no ar, com uma força que fez os ossos de seu pulso tremerem. Antes que alguém pudesse processar o que acontecia, ele jogou o braço dela de lado, com força suficiente para fazê-la dar alguns passos para trás.
O som de seus saltos arrastando contra a pedra ecoou como um tiro de aviso.
Em algum lugar na multidão, alguém suspirou novamente. Outro murmurou:
— Ela tocou o escolta de Duskgrave?
A implicação pairava sem ser dita: ela tentou agredir o convidado escolhido de Lucien?
Zara se segurou antes de atingir o chão. Seu rosto, uma vez impecável sob camadas de pó de orgulho, agora corava de humilhação ardente. Seus olhos, aqueles olhos que nunca tinham calor por mim, me encararam incrédulos, como se eu tivesse acabado de traí-la da maneira mais cruel possível.
Mas eu não era quem tinha traído ninguém.
Meu olhar encontrou o dela, calmo, frio, totalmente indiferente.
Sem medo. Sem súplica. Sem desejo por sua aprovação.
Ela não era mais minha mãe. Era apenas mais uma ameaça em um mundo cheio delas. Outra loba que tentou me enjaular, e depois chorou quando aprendi a revidar.
Eu a vi se encolher sob meu olhar.
Ela esperava que eu desmoronasse. Que eu chorasse. Talvez até caísse de joelhos como a filha obediente que ela achava que eu ainda era.
Mas eu não recuei.
E isso a aterrorizou mais do que qualquer coisa.
Sua voz vacilou, tremendo como um fio prestes a se romper:
— Riley... como... como você pôde deixá-lo colocar as mãos em mim? Eu sou sua mãe!
Um sorriso sem humor curvou meus lábios. Frio. Preciso. Como a borda de uma faca deslizando sobre feridas antigas.
— Oh? Então você se lembra que é minha mãe — disse eu, com a voz suave como geada de inverno. — Interessante. Porque eu não me lembro de nenhuma mãe que cumprimenta sua filha com um tapa na cara em sua primeira aparição pública em meses.
Inclinei levemente a cabeça, os olhos nunca deixando os dela.
— Ou talvez... essa fosse sua ideia de um presente? Um gesto materno caloroso, estilo Vale?
Suspiros e sussurros se elevaram como estática no ar.
O rosto de Zara empalideceu. Eu não parei.
— Se esse é o tipo de amor que você oferece, posso sugerir que reserve para sua filha de verdade. Scarlett? — disse suavemente. — Tenho certeza de que ela ficaria honrada em ser esbofeteada sem sentido na frente de metade do Território Norte.
A risada foi silenciosa a princípio, abafada, constrangida. Mas se espalhou. Ouvi uma Luna sussurrar algo atrás do leque. Eu não me importei.
Eu fiquei mais alta.
Deixei-os me ver.
Mas eu não tinha terminado.
— Eu não sou mais a mesma garota que você empurrou para as sombras. Não preciso da sua aprovação para existir. Não preciso do seu nome. Eu tenho o meu. Riley da Matilha Ebonclaw. Filha de ninguém. Sobrevivente de tudo.
O silêncio voltou. Mais agudo. Mais profundo. Reverente.
Então...
A voz de Alaric Vale cortou como faca. Áspera. Zombeteira.
— Você, pequena arrogante.
Virei-me lentamente para encará-lo.
Ele estava atrás de Zara, rosto contorcido de desprezo, lábios curvados em um sorriso tão familiar que fez meu lobo se arrepiar.
— Deveria ter te deixado naquele orfanato para apodrecer. Você foi um erro desde o início. E agora, olhe para você, desfilando como uma cadela nobre no cio, desesperada para encontrar um companheiro na festa. Acha que um vestido de seda te torna digna?
Não me movi.
— Não me importo com quantos vestidos você use. Você sempre será imundície — cuspiu ele. — E se acha que vou ficar aqui e permitir que envergonhe o nome Vale no aniversário da Matriarca de Duskgrave, está fora de si. Ingrata. Te acolhi quando ninguém mais o faria. E isso, isso é como você me retribui?
Cada palavra foi um tapa.
Mas eu não sangrava mais.
Deixei a raiva em sua voz me envolver como uma onda fria, e quando passou, eu ainda estava de pé.
Ainda sorrindo.
E não mais com medo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....