- Solte-a agora! – ouvi a voz imponente de Ernest, parado na minha frente, tentando me impedir de passar.
- Você não manda porra nenhuma aqui.
- Não entende que ela não quer ir com você? – a voz dele foi mansa, mas intensa, como uma espada apontada para o meu coração, que foi entrando lentamente na pele, girando enquanto terminava de dar o golpe final – Ela sempre gostou do seu irmão... A vida inteira foi apaixonada por ele. Acabou, Gabe! É tarde demais para você. Todo mundo sabe que é poderoso e pode ter tudo que quiser. Mas amor não pode ser vendido... “Nem pode virar um comprimido que você toma sempre que começa a se entediar e porque dizem que emagrece você toma antes do jantar... O amor não pode ser vendido, nem colocado em gôndolas de promoção... Imagine procurar pela embalagem mais bonita, ou uma outra, que traz amostra grátis de emoção.”
A soltei. Mas não por causa das palavras poéticas de Ernest, certamente retiradas de uma música brega. Mas sim porque Chuchu estava uma fera e chegou a me machucar com seus socos e intensa vontade de se livrar de mim.
Assim que a pus no chão, Olívia correu em direção à água, indo atrás de Jorel. Meu irmão a recebeu com a mão estendida e os dois foram para perto de Rose e Rita, onde logo chegou a aprendiz de adolescente.
Se Jorel e Olívia tivessem casado meu plano teria dado errado. Aliás, ele já estava dando errado. Consegui muito pouco naqueles meses que passei a viver com Olívia. Achei que casar com ela e fazê-la sofrer seria a coisa mais fácil da vida. E era! Difícil era quando ela me fazia sofrer, como naquele momento.
Lembrei que desde que Jorel e Chuchu se conheceram houve simpatia e simbiose entre os dois. E todo mundo que estava naquela sala, na mansão Clifford, percebeu. Eu mesmo cheguei a questionar a situação, temendo estar fazendo uma merda juntando os dois.
Enquanto os olhava juntos, ele de cueca e ela de calcinha e sutiã, rindo junto da família de Olívia, me senti totalmente excluído. E nunca uma exclusão me pareceu tão dolorida na vida. Não importava quantas porras eu fizesse, quantas mulheres pagassem para fazer ciúme ou arrancar sofrimento de Olívia. No fim, parece que ela sempre vencia e eu me fodia.
- Me diz o que eu fiz para você. – Ernest falou.
Olhei para o homem parado ao meu lado, observando o mesmo que eu dentro do lago. Não tive pena dele. Mas admitia que era tão fodido quanto eu.
- Seria fácil demais. – Proferi.
- Se disser, eu posso ao menos tentar me defender. E talvez eu realmente tenha defesa. Nunca pensou nesta possibilidade?
- Não, você não tem defesa, Ernest.
- Quero livrar minha filha disto, Gabe. Se quiser me matar, me mate. Finja qualquer coisa... Até que mais um dos agiotas que pedi dinheiro foi o culpado. Só liberte o meu Coração... Olívia é tudo de mais especial que eu tenho. E merece ser feliz. E sabe que não pode dar isto a ela. Mas seu irmão pode.
Cada palavra que aquele homem dizia era pior que uma bomba jogada diretamente sobre mim, num campo minado. Nas duas últimas conversas que tivemos naquele dia Ernest me feriu mais do que qualquer pessoa em toda a vida.
- Você não pediu dinheiro só para aquele agiota, não é mesmo?
- Não! – confessou – Há vários outros. E as ameaças seguem.
- Eles irão matá-lo. Sabe disto, não é mesmo?
- Sim, eu sei. E por isto estou aqui, neste momento, na casa do meu maior inimigo... Porque apesar de tudo, me sinto mais seguro ao seu lado do que longe de você.
- Não irei poupá-lo, Ernest. A única diferença é que eles pouco se importam com a forma como irá morrer. E eu quero que seja de forma lenta e dolorosa.

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