Não entramos na casa. Naquela noite ficamos na areia, conversando até o sol nascer. E o que era para ser um dos piores momentos das nossas vidas foi uma volta ao passado, de nós três juntas de novo.
Conversamos sobre vários assuntos, rimos, nos divertimos e não houve mais espaço para lágrimas ou tristeza. Porque era assim quando eu estava com elas: amor, cumplicidade e um mundo inteiro de possibilidades.
E agora que tínhamos um plano, nada nos faria entristecermos. Eu havia dito a Gabe que tudo que ele fizesse, receberia de volta. Mas meu marido tinha a péssima mania de não me escutar.
Fomos acordadas pelos gritinhos da tal Rarith, que não queria que a areia tocasse seus pés. Abri os olhos e me deparei com Gabe pegando a sua amante no colo, a fim de facilitar seu acesso ao lago sem pisar na areia.
Espreguicei-me vagarosamente e senti meu corpo dolorido. Rita e Isabelle sentaram na areia e nos olhamos, não contendo o riso. Não sei qual de nós tinha a cara pior.
Até que olhei para Gabe e Rarith, ele de mãos dadas com ela entrando na água, vez ou outra olhando para trás para ter certeza de que eu estava vendo que estava literalmente com outra mulher.
- Eu o odeio! – Isabelle disse de forma sincera.
- Não, eu odeio mais. – Rita contestou.
As duas me olharam, esperando uma resposta.
- Eu amo Gabe Clifford. – Assumi, pela primeira vez, para mim mesma e para outras pessoas, as que eu mais confiava na vida.
- Você não pode amá-lo. Ele é mau... O vilão da história! – Isabelle ficou furiosa.
- Você é inteligente o suficiente para saber que não é possível escolher quem amar. Claro que se eu pudesse, não o amaria. Mas Gabe já está em todo o meu coração.
- Caralho, como você consegue amar um homem sem coração como Gabe Clifford? – Rita não aceitava.
- Não sei – dei de ombros – Talvez porque eu ainda acredite que ele tem um coração. E que eu posso morar dentro dele algum dia.
- Este homem não merece nem o seu dedinho do pé. – Isabelle reclamou, levantando – Vou buscar sua insulina e o medidor.
Olhei enquanto ela ia em direção à casa e disse para Rita:
- Esta menina não existe. Fomos privilegiadas de ter ela como irmã.
- Todas nós fomos privilegiadas. – Rita me deu um beijo e levantou – Vou falar com papai. Quer vir? Não vai ficar aí olhando os dois, não é mesmo?
Na verdade, eu queria sim. Mas tinha uma coisa que precisava fazer naquele dia e hora. Não podia ser diferente.
Entrei na casa, subi no quarto de Rita e percebi que minhas coisas não estavam lá, como eu havia pedido para Gabe na noite anterior, assim que sua amante chegou. Seguia tudo no quarto principal. Pedi que a empregada levasse meus pertences para um dos quartos livre e esperei até que ela acabasse.
Apliquei minha insulina, comi uma coisa qualquer, escovei os dentes e voltei para o lago. Meu pai e Rita estavam conversando dentro da casa. Não vi Rose e não duvidei que estivesse junto de Gabe e Rarith, tentando foder ainda mais a minha vida.
Gabe já não estava mais na água com Rarith. Os vi na sacada onde ficava o barco, sentados um de cada lado, como se mal se conhecessem. Fui até lá e quando cheguei deparei-me com meu marido no celular e a mulher tomando sol numa das espreguiçadeiras.
Me aproximei e Gabe tirou os óculos escuros, me analisando.
- Oi – Falei, puxando uma cadeira e sentando ao lado dele – Como foi a noite?
- Onde você dormiu?
- Na areia, aqui na beira do lago, com minhas irmãs.
- Estou falando sério, Olívia!
- Eu também. Embora você não tenha direito de me cobrar nada, estou falando a verdade.
- O que está fazendo aqui? – franziu a testa – Eu contei a toda sua família que sua irmã é uma prostituta.
- Na verdade ela não é uma prostituta. É acompanhante de luxo. – Expliquei, como se fizesse alguma diferença.

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