Virei as costas e saí, sentindo as lágrimas me traírem. Malditas lágrimas, que eu havia jurado não derramar mais a não ser por algo muito importante. E aquilo não era importante. Eu mesma sabia que Gabe tinha mil planos para aqueles dias na casa do lago. Porém não estava preparada para a forma como meu coração iria reagir.
E doía! Doía pra caralho! E quando eu pensei que não podia doer ainda mais... Doeu.
Desci em direção ao lado, entre os pinheiros enormes que pareciam uma típica cena de filme de terror, onde tudo que se via era aqueles troncos estreitos e altos, com folhas lá em cima, como se quisessem fugir dali e ir embora para a lua.
Eu também queria ir embora para a lua. Achei que seria tão fácil Gabe se apaixonar por mim. Afinal, eu lhe dei o meu melhor. Mas não era suficiente para o meu marido. Aquela vingança teria fim algum dia? Quando seria? Porque eu não estava preparada para a morte do meu pai. E se Gabe fizesse isto eu nunca o perdoaria.
No fim, estive enganada o tempo todo. Não havia mesmo nenhum tipo de sentimento e tudo não passava de atração física... Sexo!
Cheguei no lago e olhei para a extensão de areia, iluminada pela lua e algumas lâmpadas ao longo do percurso. Então a vi... Minha irmã mais velha, aquela que poderia questionar a minha chegada à família, mas que tudo que fez foi me estender a mão e ser a pessoa mais incrível do mundo.
Rita estava sentada na areia, observando o lago de águas escuras e profundas. Sentei-me ao lado dela e aspirei o ar puro e fresco. Não falei nada. Ela não disse nada. Deixei as lágrimas rolarem silenciosas pelo meu rosto, sabendo que ela fazia o mesmo.
- Este lugar é bonito! – Falei quando avistei a luz da lua refletindo bem no meio da água.
- Eu não devia ter vindo.
- Eu sinto muito!
- Não é culpa sua. Nunca foi.
Peguei a mão dela e não pude deixar de dizer:
- Desde que a vi pela primeira vez, quando entrei na casa que meu pai disse que seria também minha, achei você a pessoa mais linda que já vi na vida.
- Todo mundo é linda aos 18. – Ela sorriu, limpando as lágrimas.
- Então fui a conhecendo. E não imaginei que fosse possível admirá-la ainda mais.
- Não sou motivo de admiração de ninguém. Sou uma vagabunda! – levantou os ombros. – E mentirosa.
- Nunca vou deixar de admirá-la, Rita. Você é incrível e não deixarei ninguém dizer o contrário.
Rita riu e apertou minha mão:
- Quando você vai perceber que o copo não está “meio cheio”?
- Quando ele virar... E não tiver mais água. – Deitei a cabeça no ombro dela.
- Decepcionei todos vocês.
- A vida é sua. Ninguém tem nada a ver com o que faz ou deixa de fazer. A não ser... Que esteja sendo obrigada a fazer isto.
- Não, não estou sendo obrigada. Eu tive outras opções. Mas... O dinheiro é muito bom. Faço parte de um catálogo de acompanhantes de luxo. Não saio com homens que não têm dinheiro. Então, no geral, eles são limpos, bem apessoados... E cheirosos.
Comecei a rir e ela não se aguentou, rindo também.
- O que achou engraçado? – Ela perguntou.
- Quem está vendo o copo meio cheio agora?
- Não estou mentindo... Eles não são ruins. E tem alguns que... São lindos!
- Então você só precisa cuidar para não se apaixonar.
- Não tenho orgulho de ser uma prostituta...
- Acompanhante de luxo – corrigi – Soa mais moderno. Você não sabe o que são prostitutas de verdade. Eu sei. E elas não são como você, Rita.
Ela riu, com escárnio:
- Qual a diferença? Somos todas vagabundas.
Suspirei e deitei na areia, de forma confortável. Rita fez o mesmo. Ambas olhávamos para a lua.
- Sabe o que prostitutas como a minha mãe faziam? Elas trepavam por comida... E às vezes até mesmo bebida. Uma vez eu a acompanhei num lugar fétido e escuro, onde todos fumavam a ponto de a fumaça quase não dar para identificar quem era quem. Lembro que tinha um bar feito com madeiras parecendo tiradas do lixo... E ao lado uma escada velha. Na parte de baixo bebiam e na de cima fodiam, depois que pagavam pela puta. Então o desgraçado escolhia sua puta preferida, pagava o quanto achava que valia e ganhava um pedaço de papel higiênico e a chave da porta. Não tinha banheiro nos quartos. E os lençóis não eram trocados depois de cada casal que usava a cama. Eu nunca senti um cheiro tão ruim quanto o daquele lugar.

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