- Não posso mentir. Eu não me importo com você! – Foi minha resposta, seca, enquanto a segurava e sentia sua respiração acelerada, nossos corpos totalmente unidos, como se fossem um só, embalados pelo movimento da água.
- Ok, se não se importa comigo, merece saber só o básico: nasci de uma prostituta que teve um caso com um homem casado. Quando ela morreu, este homem fez um teste de DNA e impediu que a filha fosse para um abrigo, onde certamente seria adotada ou passaria a vida lá, até completar a maioridade. Esta garota aos 10 anos se mudou para um lugar totalmente desconhecido, onde haviam pessoas que se diziam sua família. Descobriu que tinha duas irmãs e conheceu o amor. E viveu feliz... Mas não para sempre. Um dia, um certo CEO, em busca de vingança por um passado que o atormentava, mas escondia, decidiu casar com a garota e transformá-la em sua escrava, até que a morte os separasse... E... Fim.
- E a garota... Gostava do CEO?
- Tanto quanto ele dela. – Encarou-me de forma séria.
De onde porra aquela menina tinha saído? Nasceu de dez anos e com resposta para tudo que a vida pudesse perguntar?
- Caralho... Você me odeia! – Suspirei, não contendo o riso.
Ela sorriu e deu um beijo na ponta do meu nariz, esfregando a boceta em mim, de forma provocante:
- Tudo em mim é recíproco, Gabe! Entenda isto e nos daremos bem.
- Reciprocidade... Ato de contribuir um comportamento com outro semelhante. Uma prática que envolve dar e receber. – Me ouvi divagando.
- Gabe, até os dez anos eu vivi o que muitas crianças não suportariam passar. Quando saí do inferno, conheci o mundo e descobri que nem todos eram filhos da puta sem coração. Eu passei fome, eu passei frio e dormi ao relento. Mas não culpo ninguém por isto. O que passou, passou. E Deus me deu a oportunidade de seguir em frente e fazer diferente. Enquanto tantas pessoas morrem todos os dias no mundo, outras nascem. Ou seja, todos os dias há uma nova chance de fazer diferente e ser feliz. Quando deixei tudo para trás eu jurei para mim mesma que não seria uma pessoa amargurada e sim grata por ter tido uma nova oportunidade. Eu não sei o que meu pai fez para você no passado... Mas para mim ele é um salvador, a luz na minha escuridão. Ernest Abertton não precisaria ter me tirado de lá, tampouco assumir uma filha aos 10 anos, reparando seus erros perante a família. Meu pai é tudo para mim. E eu aceitei este casamento por dois motivos; um: para poupar a ele e minha família. Foi uma forma de gratidão pelos dez anos de felicidade que tive ao lado deles. Dois: eu tinha um crush em Jorel. Mas quando o vi pela primeira vez, na mansão Clifford, naquela reunião para que eu e Jorel pudéssemos nos conhecer, imediatamente eu soube que você seria o responsável por toda minha dor e destruição.
Abaixei o olhar. E eu nem sabia ao certo o motivo pelo qual não conseguia encará-la. Tudo que senti foi meu coração errar as batidas, incerto se o ritmo ficou mais fraco ou forte... O certo é que ela estava ali, dentro dele, a cada batida. Porque eu não conseguia desvincular a imagem daquela mulher forte da garota que passou fome, frio ou dormiu ao relento.
Minha infância foi uma merda. Mas eu tinha comida e meus irmãos. E embora não fossem bons pais, eles pagavam para sermos cuidados. E nunca me vitimizei pelo que foi o meu passado enquanto criança. Assim como Olívia, também atribuía a ele o fato de eu ser quem era hoje, um homem forte e de sucesso. Mas ela... Que porra ela teve? Por que Ernest teve que ser seu pai? Com todas os homens do mundo, por que exatamente ele? Um homem que a renegou por dez anos e agora ganhava a capa de herói só porque não a deixou ir para um orfanato.
- Seja bom comigo, Gabe... E me deixe ser boa com você! – Alisou minha bochecha de forma carinhosa.
- Por que acha que serei o responsável por sua dor e destruição?
- Você, melhor do que ninguém, deve saber o motivo, não é mesmo?
- Será que sei? – Desafiei-a a falar mais sobre o que pensava de mim.

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