Aproveitei que ainda tinha o dia livre e fui ver meu pai no hospital. Assim que entrei no quarto, um sorriso iluminou seu rosto ainda machucado. Fui em sua direção e lhe dei um forte abraço, ouvindo um gemido de dor.
- Desculpe, pai... Acho que o apertei demais.
- Eu gosto dos seus abraços de urso. – Ele sorriu.
- Quando irá para casa?
- O médico disse que até amanhã já estarei liberado. Não aguento mais ficar aqui.
- Imagino que não deva ser legal!
Ficamos nos olhando um tempo e ele pegou minha mão:
- Me desculpe.
- Está tudo bem.
- Não, não está. Você casou com um monstro para me ajudar. E pagou o agiota. Eu... Tenho vergonha de tudo que fiz, Coração.
- Pai, é o mínimo que posso fazer por você.
- Você é minha filha, Coração. Eu não fiz nada demais em tê-la assumido depois que sua mãe morreu. E me arrependo amargamente de não ter feito isto antes. Tenho certeza de que teria evitado muito sofrimento na sua vida se a tivesse tirado daquele lugar quando nasceu.
- Tudo acontece no momento em que precisa acontecer. – Alisei sua bochecha, tocando carinhosamente os ferimentos – Eu gostaria de ter podido evitar isto.
- Seu marido emprestou o dinheiro para o pagamento dos agiotas?
Engoli em seco:
- De certa forma sim.
- De certa forma?
Bem, teoricamente foi com o meu dinheiro... Mas que eu tinha pego através da venda de um bem dele. Então, sim, Gabe tinha ajudado a pagar o agiota.
- Ele pagou, pai.
- Então... Acha que ele pode estar amolecendo o coração e ter esquecido o que lhe fiz, que nem sei o que é?
- Eu creio que sim. – Sorri, não disposta a dizer nada de ruim naquele dia. Meu pai já estava num hospital. Incomodá-lo com qualquer outra situação seria uma judiaria.
- Como ele a trata?
- Bem... Muito bem. – Se meu pai visse a mordida, não acreditaria que Gabe não fez de propósito. Mas escondi as marcas com uma jaqueta por cima da blusa de gola alta, que cobria todo o meu pescoço e a calça jeans que não deixava nada da pele aparecendo.
- E o irmão dele?
- Não sei nada sobre Jorel. – Confessei – Mas Gabe... Não é uma pessoa ruim.
- Nunca achei que você não fosse capaz de atingir o coração dele.
- Claro que vez ou outra tenho que lhe dar umas lições. – ri.
- Acha que... Poderia nos livrar das dívidas bancárias?
- Eu acho que não, pai. É cedo para começar a pedir estas coisas a Gabe. Por hora vamos nos dar por satisfeitos por... O que temos.
- Por favor, me prometa que nunca mais se envolverá com estes agiotas de novo, nem para pagamentos.

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