A porta se abriu e Gabe entrou de novo. O olhei de soslaio:
- Não aguentou ficar nem cinco minutos longe de mim?
- Eu não terminei o que ia dizer sobre o meu aniversário.
- Ah, sim... Você já vai fazer 31 anos... Parou aí... – Não olhei na direção dele, ainda focada no quadro.
- Faremos uma viagem.
Não resisti e o olhei, não contendo o entusiasmo:
- Enfim, nossa lua de mel!
- Quero sua família presente.
Arqueei a sobrancelha, confusa:
- A minha família? Mas você os odeia.
- Sim, por isto mesmo os quero presentes. Não é um convite, é uma ordem.
- Não é muito educado obrigar as pessoas a irem no seu aniversário se elas não têm vontade. Mas posso pedir que eles enviem o presente, para que não se sinta chateado por não ganhar nada no seu dia.
- Será na minha casa no lago.
- Gosto de casas em lagos!
- E espero que sua família também.
- Não posso obrigá-los. Meu pai nem saiu do hospital ainda.
- Não me importa. Ele irá.
- Ok... Posso convencê-los a ir. Em troca você trará Rita.
- Rita? Quem é Rita?
- Minha irmã mais velha. Não há vejo pessoalmente há meses. E papai não tem dinheiro para custear a passagem dela.
- Não.
- Sim.
- Ok! Providenciarei isto. - Saiu sem sequer se despedir.
“Ok, providenciarei isto”! Simples assim? Não, claro que não. Gabe não tinha só segundas intenções, mas também terceiras, quartas e quintas com a aquela reunião numa casa no lago.
Suspirei e olhei para a aliança dele sobre a lareira. Retirei a minha e coloquei junto. Eu não precisava usar se ele também não usava. Sem contar que a minha sequer tinha o nome dele e sim o de Jorel. E aquela porra era de latão.
Ah, Gabe, você ainda não entendeu que tudo que fizer para mim receberá em dobro? Quando irá se render e decidir abrir o seu coração? Eu sei que podemos ser felizes. Eu quero que seja você o meu “felizes para sempre”. Porque... Eu gosto de você exatamente do jeito que é... Chato e autoritário.
Nem Freud conseguiria explicar o motivo de uma criança criada no mundo da prostituição não ter receio nem nojo de sexo. Mas acho que ele explicaria o fato de eu ter me identificado com um sujeito autoritário: a falta de alguém que tivesse se importado comigo na infância, que tivesse me dito “nãos”, já que nunca os tive. Eu podia fazer praticamente tudo que queria, menos morrer. Porque se eu morresse minha mãe teria problemas.
Meu pai era um amor comigo. Mas me deixava fazer tudo que eu queria para compensar o tempo que não esteve ao meu lado. Gabe, apesar de não se importar comigo, se impunha. E tentava fazer prevalecer a sua vontade frente à minha. Embora eu não o obedecesse, gostava da forma como ele agia.
Se Freud tivesse me conhecido a psicanálise jamais teria o rumo que teve.
Deitei na cama e chamei a “cambada”:
@olívia_ S.O.S
@isabelle_ O que houve?
@olívia_ @rita???
@isabelle_ Fuso horário. Mas a irmã principal está aqui!
@rita_ A principal chegou.
@isabelle_ Todas vocês sabem que sou eu a principal.
@rita_ A mais velha é sempre a principal.
@olívia_ Ei, preciso de ajuda.
@isabelle_ Fale que sou a pessoa que poderá lhe ajudar. Quer falar sobre sexo?
@rita_ Meu Deus, mamãe sabe que você diz esta palavra?

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