A mulher que me acompanhava lhe disse que não precisava falar comigo como uma criança porque eu já tinha passado por tudo na vida. Então ele disse: “Olá, talvez eu seja o seu pai. Irei levá-la para fazer um exame de DNA para ter certeza disto, embora você seja bem parecida comigo – naquela parte percebi emoção da parte dele - Se realmente for a minha filha, a levarei para morar na minha casa, com a minha família”.
Então eu tirei a sorte grande, porque meu sangue era o mesmo daquele homem cheiroso e bonito. E ele me levou para a sua casa, que a meu ver era como um castelo de conto de fadas. E tinha uma bebê linda e uma garota simpática e bonita que falava comigo de forma doce e gentil. A esposa dele nunca me aceitou. A parte estranha é que Rose nunca se deu em conta de que eu era uma criança, tão vítima quanto ela.
Desde que Ernest Abertton disse: “sou seu pai”, ele foi literalmente um paizão. E com minha nova família eu aprendi sobre carinho, amor e proteção. E dei tanto valor àquela nova vida que decidi enterrar a outra. Eu tinha ganhado uma nova oportunidade e precisava saber aproveitá-la.
Chorar, lamentar, relembrar... Nada daquilo mudaria o passado. Então, com dez anos, eu decidi que viveria o presente e o futuro. E peguei um caderno e comecei a escrever algumas coisas porque achava que eu era alguém importante, afinal, quantas pessoas recebiam uma segunda chance na vida?
Sim, foi preciso a morte da minha mãe para que eu encontrasse a felicidade. E como culpar meu pai por qualquer coisa se ele foi simplesmente incrível quando me assumiu e levou-me para a residência Abertton?
Então sim, ele era tudo que eu tinha de mais importante na vida. Não importava quantos defeitos tivesse, quantos erros cometeu no passado, quantos fosse cometer no futuro... Ernest Abertton ainda era o meu salvador, o homem que me ensinou sobre carinho, amor e segurança. Antes dele eu sequer sabia o que era frequentar uma escola. Aprendi a ler e escrever nas casas pelas quais passava. Aquele homem me deu uma vida de verdade.
E quem o ferisse, feria a mim, porque éramos indissociáveis.
Vi a mão de Gabe repousar sobre o vidro, o olhar tentando encontrar onde estava o meu, em algum lugar perdido entre o último andar e o primeiro.
- Por que você fez isto? – o olhei.
- Depende do que você quer dizer com “isto”. Se é sobre o café, eu não pensei que pudesse estar tão quente e...
- Acha mesmo que pode me machucar com um café quente, Gabe?
- De que porra você está falando?
- Do meu pai.
- Você sempre soube que ele era o meu alvo, Chuchu.
Deixei uma lágrima escorrer pela minha bochecha e Gabe retirou a mão do vidro, dando um passo para trás.
- Por que não o matou de vez?
- Do que você está falando?
- Do que você mandou fazer com ele.
- De qual das coisas que mandei fazer com ele estamos falando?
- Dos ossos quebrados... De ele estar num hospital lutando pela vida... Totalmente deformado. – Limpei a lágrima.
Gabe estreitou os olhos e sorriu, confuso:
- Eu... Talvez não esteja lembrado de ter dado esta ordem.
Respirei fundo e parei de fingir que era forte. Porque eu não era quando se referia ao meu pai e sua possível morte. Deixei meu corpo escorregar pelo vidro e sentei no chão, levantando as pernas e descansando a cabeça nos joelhos, deixando que a dor me invadisse através das lágrimas.
Não tenho certeza de quanto tempo fiquei ali, incontrolada, deixando que o meu inimigo visse minha maior fraqueza, ficando totalmente exposta. Por várias vezes tive a impressão de sentir a presença de Gabe próxima o bastante para que a mão quase me tocasse. Então o percebia se afastar.
Quando finalmente me acalmei, levantei o rosto e deparei-me com Gabe parado exatamente no mesmo lugar, me observando. Não esboçava nenhuma reação... Nem de dó, nem de raiva, tampouco de empatia.
- Infelizmente não há nada que eu possa fazer por você, Olívia.
Com dificuldade levantei do chão e disse:
- Achei que o trato era você me machucar para ferir meu pai.

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