Peguei um saco de arroz e uma panela. A coloquei no fogo e abri o saco de plástico com os dentes, de forma desajeitada, fazendo com que todos os grãos caíssem no chão. Vi que o fogo estava ligado, mas não na panela que eu coloquei e sim numa frigideira.
Todas as crianças se aproximaram e juntei os grãos de arroz rapidamente para que não engolissem. Um dos bebês que aprendera a caminhar a bem pouco tempo topou no banco de madeira, que bateu no fogão e fez com que a frigideira com óleo fervente caísse, pegando diretamente nele. Como eu estava abaixada, parte caiu na minha nuca, grudando chumaços de cabelos na pele.
Aquele foi o meu último dia naquela casa. Fui jogada para fora e sequer me deixaram saber o que aconteceu com o bebê. Eu sabia o caminho de casa e fui para lá sozinha. Mas não tinha chave. Então fiquei sentada na porta, esperando minha mãe até o outro dia de manhã.
A queimadura doía. Mas o medo de ficar sozinha ali na porta durante toda a noite era ainda pior. Quando minha mãe chegou no outro dia a queimadura tinha virado uma bolha. Lembro que ela cortou os meus cabelos curtos, com uma tesoura com pouco fio. Todos os dias ela passava creme dental no ferimento. Quando a bolha estourou, a dor que eu sentia era como se alguém estivesse comendo a minha carne. Aquele foi o ferimento que mais doeu e demorou para curar. Dois, três meses... Talvez quatro.
Até os dez anos de idade eu nunca havia ido ao médico. Todos meus ferimentos foram curados em casa (e isto não significava na “minha casa”).
Eu ainda sentia o óleo quente na minha nuca... E a tocava desesperadamente, gritando:
- Não foi culpa minha! Me deixe ver o bebê!
- Olívia! Olívia!
Abri os olhos e vi Gabe dando t***s no meu rosto. Meu corpo estava no chão e a cabeça em seus braços.
Voltei a mim mesma, atordoada. Minha blusa estava fora do corpo e Gabe a passava no meu peito. Tentei levantar, mas ele me impediu, forçando-me a ficar ali.
Não falamos nada. Apenas nos olhávamos, cada um em seu próprio mundo.
- Não estava... Tão quente! – a voz dele foi fraca, os olhos azuis ainda nos meus enquanto tentava justificar.
- O óleo estava no ponto... – desabei, tentando conter as lágrimas, tocando minha nuca.
- Como aconteceu?
- Você... Jogou o café! – Levantei de forma rápida, não disposta a falar sobre aquilo.
- Onde você esteve nestes últimos minutos, Olívia? Porque não... Você não estava aqui!
Puxei minha camiseta das mãos dele e disse, num sorriso:
- Não apague meu fogo, Gabe! Queime comigo!
Gabe levantou-se com dificuldade e ficou acompanhando meus passos enquanto eu andava sem saber exatamente para onde ir:
- Não tive intenção de botar sal no seu café! Foi... Sem querer. Devo ter trocado o açúcar pelo sal sem perceber.
- Não acredito em você, Olívia. Às vezes acho que tudo que faz é premeditado. E noutras... Penso que sua ingenuidade não pode ser tanta depois de tudo que provavelmente já passou nesta vida.
- Quer conversar, Gabe? Passado, presente, futuro!
- Não.
- Sabe que mais cedo ou mais tarde teremos que ter uma conversa séria, não é mesmo? E sem roupas!
- Caralho... Você está fodendo com a minha cabeça, porra! – Ele gritou.
- Não estou vendo isto – provoquei – Me explique na prática como funciona. Prefere no meu quarto ou no seu?

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