POV OLÍVIA
Naquela manhã acordei cedo para conseguir falar com Gabe antes que ele saísse. Fazê-lo passar a noite em casa era uma vitória, já que raramente ele aparecia. E eu sabia que era por conta do beijo que trocamos na piscina. Se é que eu poderia chamar aquilo de beijo, já que durou alguns segundos e só deu tempo de eu sentir sua língua morna e ele encerrou o toque.
Tive dificuldade de dormir naquela noite por conta do quanto de coisas que desejei fazer com Gabe depois que ele me tocou na piscina. Sonhei com o crème brulée nos seus lábios e o como devia ser bom saboreá-lo dali.
Por que aquele homem mexia tanto comigo? Seriam seus belos olhos azuis iceberg? Ou a forma arrogante como me tratava, que me fazia querer fazê-lo sentir a bondade e o amor que existiam dentro de mim?
O certo é que toda vingança tinha por trás algo ruim que havia sido feito... Uma coisa que doeu, machucou, feriu demais. Se Gabe ao menos me deixasse ver seu lado da história, para poder acalentá-lo se tivesse razão!
Rarith lhe dava colo? Acolhias suas dores? O fazia tentar esquecer a maldade a fim de viver de forma saudável, sendo uma pessoa normal? Ou ela o incentivava a me atormentar ainda mais para ferir meu pai?
Eu não gostava de estar naquela casa. Mas eu gostava de Gabe. Ou seria do seu corpo?
Uma pessoa que passou tudo que passei na infância, que viu tudo que vi, que sofreu tudo que sofri, talvez não deveria ver o sexo como se fosse algo bom. Mas cresci ouvindo as mulheres falar o seguinte: “Tudo que você quiser de um homem, conseguirá através do sexo!
E aquelas palavras vieram não só da minha mãe, mas de todas as casas pelas quais passei, já que raras as minhas moradias na infância não envolviam a prostituição. E eu prestei atenção em algumas dicas: “A primeira vez precisa ser com um homem mais experiente.” “Sua virgindade será como um troféu para o homem que a foder pela primeira vez. Por isto escolha bem.” “Não perca seu tempo com garotos. Fodem rápido, fodem mal e só se preocupam com o próprio prazer.” “Se você for bonita, gostosa e boa de cama, terá o que quiser na vida, criança.” “Sexo é tão bom quanto casa, comida e roupa lavada.” “Não existe amor à primeira vista, mas sim tesão à primeira vista.”
Infelizmente até Gabe aparecer na minha vida não surgiu ninguém com um ano sequer mais do que a minha própria idade. Então eu sabia que não eram os homens ideais para a minha primeira vez. E sinceramente, achei que seria Jorel e não Gabe. Mas então eu o vi... E lembrava exatamente dos nossos olhos se encontrando. Sim, foi tesão à primeira vista. Gabe era a pessoa. Eu era o Titanic e ele o iceberg... E a colisão inevitável.
Claro que eu já havia trocado muitos beijos. E alguns deles bem calientes, daqueles que faziam a calcinha molhar. Mas nunca na vida desejei tanto um homem como Gabe Clifford. Talvez porque ele fosse dominador e de alguma forma eu quisesse aquilo, mesmo que inconscientemente, já que nunca ninguém me deu atenção na vida. Ao menos até o momento em que entrei na casa dos Abertton, quando conheci papai e minhas irmãs.
O fato de Gabe fazer questão de dizer o tempo todo que não gostava de mim me fazia crer exatamente o contrário: que gostava. Ninguém era feliz sozinho. A vida inteira as pessoas se procuravam... E se encontravam. E eu era o que Gabe procurou a vida inteira, mesmo sem saber. Qualquer outra garota quebraria com todas as palavras ofensivas proferidas por ele. Menos eu. Porque eu já era quebrada e sabia lidar muito melhor com a rejeição do que com a aceitação.
Esperei ao pé da escada até que Gabe descesse, ajeitando a gravata rapidamente enquanto segurava a pasta de couro na outra mão.
- Bom dia, marido! – sorri, segurando a xícara de café puro na mão – Eu mesma preparei um café para você.
- Quem lhe disse que eu bebo café?
- Homens de negócio geralmente bebem cafés puros e uísque. Você não fugiria disto. É muito tradicional para diferir-se.
Gabe passou por mim e foi em direção à porta.
- Sonhei com você esta noite.
- Sou seu maior pesadelo.
- Sonhei com o nosso beijo na piscina.
- Aquilo não foi um beijo.
- Está me dizendo que sabe fazer melhor? Pois bem, prove! – Pisquei.
- Eu não quero beijá-la. Se quisesse, já teria feito isto.
- Sonhei que você ia me dar um beijo... – Suspirei, escorando-me numa das portas, impedindo-o de passar.
- Só em seus senhos mesmo para isto acontecer.

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