Desde quando eu era deixado de lado? Eu era Gabe Clifford, o dono e administrador da maior empresa de medicamentos do mundo. As pessoas pagavam para poder entrar na minha sala e trocar meia dúzia de palavras.
Rael atingiu uma casa do tabuleiro que pareceu prejudicar o jogo de Olívia, que suspirou e fez cara de tédio. A forma como ao ar saiu de sua boca fez alguns fios de cabelos caírem sobre seu rosto e Rael pegou-os gentilmente, colocando para trás da orelha dela.
Apertei os olhos e depois passeis os dedos sobre eles, incerto se estava tendo alucinação. Claro que eu não tinha um mínimo de sentimento por aquela mulher a não ser de raiva, ódio, desejo de vingança. Mas isto não dava o direito de Rael fazer aquilo dentro da minha casa.
Olívia levantou o olhar e encarou-o e Rael ficou sem jeito e me olhou:
- Eu... Só... Ajeitei os cabelos dela. – Explicou, como se houvesse justificativa para seu gesto.
Apertei tão forte o copo de uísque que ouvi um estalo, observando que o trinquei na parte da borda.
Olívia, indo contra qualquer coisa que eu pudesse esperar dela, retirou os sapatos de Rael, mencionando:
- Você aí no chão com estes sapatos está me dando nos nervos... Relaxe, Rael. Sabe que o jogo demora. Então hoje não vai beber com Gabe e sim jogar comigo! Tudo nesta casa é entediante... Exceto você.
Rael me encarou, espantado. Levantei-me e antes que pudesse pensar em dizer qualquer coisa, Olívia justificou para meu amigo:
- Não se preocupe que seu amigo não é ciumento! – me olhou de forma breve – Aliás, sou casada com Gabe, mas devo fidelidade a Jorel, pois é o nome dele que está na minha aliança. Ou seja, eu e Gabe não somos um casal de verdade.
Joguei o copo de uísque no chão e chutei a porra da mesa para longe, fazendo cair todo dinheiro de mentira e as peças coloridas no chão. Os dois arregalaram os olhos na minha direção. Abaixei-me e peguei Olívia pelos braços, pondo-a sobre meu ombro e levando-a dali. Eu estava cego de ódio. Garota filha de uma puta. Em dias ela já havia me tirado a paciência mais do que Jorel numa vida.
Esperei que ela fosse contestar, gritar, pedir que eu soltasse. Mas tudo que fez foi dizer de forma tranquila para meu amigo, diretamente do meu colo:
- Foi um prazer conhecê-lo, Rael. Se quiser se divertir, sabe onde me encontrar. – E eu não vi, mas tive certeza que ela piscou para ele com aqueles olhos castanhos grandes com cílios gigantes e pretos, que faziam com que parecesse uma boneca, daquelas que fecham os olhos quando deitam e os abrem quando são levantadas.
Olívia pesava menos que os pesos que eu levantava na academia. Aliás, acho que facilmente eu carregaria quatro delas, duas em cada ombro. Assim que cheguei ao seu quarto, o primeiro do corredor, a pus no chão e peguei seu queixo, apertando-o, obrigando-a a me encarar:
- Saiba que não conseguirá esgotar a minha paciência.
- Achei que não tivesse ciúme de mim, Gabe... Me desculpe.
- Eu não tenho ciúme de você! – gritei.
- Então me deixe ficar com seu amigo! – Piscou, testando todos os meus limites.
A empurrei sobre a cama e saí, trancando a porta pelo lado de fora, levando a chave comigo. Quando desci as escadas, Rael me esperava de sapatos nos pés, em posição ereta, como se fosse um móvel da decoração.
- Eu não flertaria com ela de forma alguma, Gabe! – Justificou-se.
- Fique longe dela, Rael.
- Caralho! Eu... Nunca na vida o vi perder o controle tão facilmente.
- Eu não perdi o controle. – falei, entredentes.
- Ela... Mexe com você! – ele riu – Sente ciúmes dela, Gabe!

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