Senti a lágrima escorrer dos meus olhos, morna, dolorida feito um canivete marcando minha pele, o sabor levemente salgado absorvido pelos meus lábios. Se doía tanto com ela ainda ali... Como seria quando eu não mais sentisse sua presença? E... Qual seria a dor de perder Olívia para a diabetes, caso um dia acontecesse?
- Você está... Chorando, porra? – Ouvi a voz de Jorel do outro lado de nossa irmã, com os dedos entrelaçados nos dela.
- Me... Desculpe! – Falei de forma involuntária, limpando o outro lamento que escorria do meu corpo em forma de lágrima. – Não vou... Fazer novamente – Me encontrei dentro da mansão Clifford, ainda criança, sob as acusações do meu pai após ter trazido um cachorro que encontrei na rua, logo depois de encontrá-lo atropelado, com o intuito de fazer da nossa casa seu lar.
- Não, não vai mesmo! – Meu pai gritou, me pegando pela gola da camiseta, fazendo com que meus pés praticamente não encontrassem mais o chão, tamanha força com que me levantou.
- Vou... Levá-lo de volta para a rua... – Tentei amenizar a situação, com o cão ainda nos meus braços.
- Não mesmo... Quer salvá-lo, é isto?
Não falei nada, temendo a sua reação. Ele soltou-me e me encarou, gritando:
- Quer salvá-lo? Diga sim ou não!
- Sim! – confessei, sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
- Então vamos salvá-lo. – Ele garantiu, me puxando com agressividade enquanto pegava o cachorro do meu colo.
- O que houve? – Minha mãe perguntou antes que deixássemos a casa.
- Nada que seja da sua conta! – mal olhou-a, levando-me para fora.
Atravessamos a propriedade, para além das quadras de esportes e do campo de golfe. A área onde atualmente tinham construído um condomínio de luxo ainda era pertencente à minha família, uma região de matagal. Adentramos na mata, enquanto eu ouvi os gemidos de dor do cachorro.
Andamos tanto que achei que tínhamos nos perdido. Ele ainda me carregava pela camiseta, que havia alargado totalmente o tecido. Quando chegamos numa clareira, meu pai jogou o cachorro no chão, como se não fosse algo com vida, em que corresse sangue nas veias.
Então me encarou e falou:
- A vida é feita de escolhas. E fez a sua. Qual foi sua escolha, Gabe?
- Salvar... O ca-cachorro. – Gaguejei.
- Fale mais alto, porra!
- Salvar o cachorro! – Gritei, com firmeza.
Meu pai pôs a mão para trás e retirou de algum lugar um revólver. Engoli em seco, totalmente confuso. Ele iria me matar por ser um fraco e tentar salvar a vida inútil de um cachorro?
Pôs a arma na minha mão e disse:

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