Naquela manhã, assim que cheguei na enfermaria, havia uma fila de crianças, trazidas por Rarith.
Uma funcionária passou por ali e franziu a testa, rindo:
- Por acaso isto é uma fila para enfermaria?
- Sim. – Rarith respondeu, sorrindo.
- Nunca vi a enfermaria tão movimentada. – Me olhou de forma divertida e saiu.
Suspirei e fitei os rostinhos ansiosos e animados e perguntei diretamente para Rarith:
- Não me diga que eles estão com os corações partidos!
- Estou com dor no rim. – Um pirralho, não tendo mais que cinco anos, justificou.
- E eu no umbigo. – Disse com propriedade o menor deles, com todos os dentes de leite na boca, parecendo recém completar sua arcada dentária.
Respirei fundo e abri a porta da enfermaria, não os deixando entrar:
- Levarei os curativos no recreio, combinado? Não posso deixar que entrem todos ao mesmo tempo. Este lugar é para emergências e... A dor de vocês não é uma emergência... Entendem? – Tentei ser gentil e fazer com que compreendessem.
- O recreio da manhã é às 10 horas – Rarith explicou, caso eu não soubesse.
- Estarei com os curativos às 10 horas, no pátio. – Combinei.
- Tem dos Minions? – O garoto de cabelos arrepiados perguntou.
- Posso ver se consigo! – Pisquei.
Enquanto eles saíam, Rarith me puxou pela mão, fazendo-me abaixar na sua direção, sussurrando no meu ouvido:
- Você só cura corações partidos, não é mesmo?
A olhei e ela piscou, com um sorriso que me deu vontade de pegá-la no colo e abraçá-la com tanta força a ponto de quase esmagá-la.
- Não curo corações partidos. – Respondi.
- Tio Gabe disse que só você pode consertar o coração dele.
- Hum! – respirei fundo – Tio Gabe é um sapeca!
- Eu gosto muito do tio Gabe. Mamãe disse que o dia que ela morrer, eu ficarei com o tio Gabe.
- Sua mamãe não vai morrer, não se preocupe. – Sorri e toquei a ponta do nariz dela.
- Mamãe disse que só o tio Gabe me amará como ela.
Engoli em seco, sentindo um nó na garganta. Por que Aneliese falava aquelas coisas para a filha? Alisei a mãozinha delicada de Rarith e falei:
- Eu também gosto muito de você! Não sei se tanto quanto sua mãe e tio Gabe, mas... Gosto um tantão assim! – abri os braços e ela começou a rir.
- Também gosto de você. E sou sua amiga... Porque você é amiga do tio Gabe.
- E seu pai? Ele também a ama um tantão?
Ela estreitou os olhos:
- Acho que sim.
- Acha? Ele... Nunca disse que a ama?

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