Pronto! Gabe sabia tudo sobre minha nova vida. E pelo visto não me deixaria em paz. E embora eu gostasse de ele estar começando a me dar atenção, não queria misturar minha vida pessoal com trabalho, pois tinha medo de me ferrar.
Fui até o armário e peguei um curativo decorado com um personagem infantil e o colei na região do seu coração, sobre o terno, praticamente na área onde ficava o falso bolso. Ficou engraçado e não contive o riso, incerta se era por deboche ou porque realmente achei fofo aquele homem vestido num terno Kiton que custava mais do que eu receberia em um ano de trabalho com um curativo de “bichinho” decorando o look.
Quando fui retirar a mão do peito dele, Gabe pegou-a, impedindo-me de me afastar, e fui obrigada a encará-lo, com aqueles olhos azuis que pareciam querer entrar na minha alma.
- Ainda dói! – A voz dele foi gentil, quase um murmúrio.
- Sinto muito, mas não posso consertá-lo.
- Só você pode... Pois foi quem o deixou assim. – Os dedos mornos envolviam os meus, fazendo-me sentir um arrepio descer pela espinha.
- Primeiro você partiu o meu... Em mil pedaços. – Deixei claro.
- Me diga o que posso fazer para colá-lo!
- Me deixe... Em paz. Isto me curará.
- Jamais!
- O curativo de Olívia vai deixar o seu coração melhor, tio Gabe! – Rarith disse, com seus olhinhos brilhando, sem entender porra nenhuma.
Retirei minha mão do seu domínio, aproveitando-me de sua distração com a menina.
- Ela precisa ir para a aula. – Falei.
- Tio Gabe que me trouxe hoje! – Ela festejou.
- E farei isto todos os dias. – Ele deixou claro.
- Espero que não fique doente todos os dias...
- Um coração partido é um coração partido! – ele pegou Rarith no colo, até com a mochila nas costas – Então talvez eu precise vir todos os dias fazer um curativo... Até que consiga curá-lo totalmente.
- Você vai morrer, tio Gabe? – A testa de Rarith franziu, demonstrando preocupação.
- Não, ele não vai morrer – garanti à menina – “Vaso ruim não quebra”.
- Tia Olívia acaba de me deixar mais ferido ainda! – Ele fez careta e a menina começou a rir.
- Onde está sua mãe? – Perguntei diretamente para Rarith.
- Ela está viajando!
Olhei para Gabe, que confirmou:
- Aneliese viajou.
- E Rarith ficou sob os seus cuidados?
- Meu papai ficou. – Ela mesma respondeu.
- Ela... Foi sozinha? – fiquei confusa e lembrei das revelações de Rarith acerca de a mãe se automedicar.
- Sim.
- O que a levou a fazer uma viagem sozinha? Para onde ela foi?
- Eu... – Gabe pareceu preocupar-se – Não sei! Mas... Você me deixou bem confuso agora. Realmente é estranho.
- Para onde ela foi?
- Não sei.
- Que porra de irmão você é?

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