- Você gosta de mim? – a pergunta não veio carregada de surpresa, mas como algo que ele precisava ouvir de novo, como quem confirma um segredo já revelado. E eu já tinha dito. Mais de uma vez.
- Eu gosto. Mas não acho que possamos ter um futuro juntos.
- Por quê?
- Você gostaria de ter algo comigo, Gabe?
- Já temos, Olívia.
- O que temos? – eu ri – Casou comigo no lugar do seu irmão, porque Jorel não apareceu no dia. Me maltratou de todas as formas possíveis, me deixando até sem comida. Tirou a minha insulina do mercado somente para me ferir, pondo em risco a minha vida. Então... O que temos, Gabe? Que tipo de “gostar” é este seu? Porque imagino o que você pode fazer com pessoas que não gosta, tipo meu pai. Ainda me pergunto, vez ou outra, porque não mandou matá-lo, sendo que tem dinheiro o suficiente para fazer isto sem que ninguém o culpe. Há em você algum princípio ético com relação a isto?
- Simplesmente achei a vingança de forma lenta mais dolorosa.
Suspirei, sabendo que não evoluiríamos:
- Eu não posso ficar com você se não perdoar o meu pai.
- Chuchu, precisa entender que seu pai não é santo... Nunca foi.
- Sabe algo dele que eu não sei, Gabe?
- Além do fato de ele ter fingido que você não existia por dez anos? – riu, com deboche – Eu vivi uma vida com um pai e uma mãe que moravam comigo e fingiam que eu e meus irmãos não existíamos. E não tenho nenhum tipo de sentimento por eles. Como conseguiu se afeiçoar a alguém que apareceu na sua vida do nada, depois de dez anos, fingindo ser o seu salvador?
- Eu sempre implorei por afeto... E não tive. Então me apaixonei pela primeira pessoa que apareceu na minha frente e demonstrou importar-se comigo.
- Encontrei este sentimento em Mônica... E talvez... – abaixou a cabeça, confuso – Fiquei tão obcecado por ela por ser a primeira pessoa que me amou de verdade.
Eu não conheci Mônica. Aliás, não sabia praticamente nada sobre ela. Mas me pus a pensar se Mônica amou Gabe mais do que eu. Porque o que eu sentia por aquele homem era tão grandioso que chegava a me fazer pensar em perdoá-lo mesmo com todo o mal que me fez. Meneei a cabeça, certa de que jamais alguém amou ou amaria Gabe Clifford mais do que eu.
- Não posso falar por Mônica, pois não a conheci. Então não tenho certeza se ela o amou de verdade. A única convicção que tenho é de ela é o seu amor.
- Meu amor? Sim, a amei, mas então você... – me olhou e calou-se.
- Não vai concluir? – Perguntei, confusa.
- Não vai me dar uma chance? – pareceu querer encerrar a discussão.
- Só quando desistir da vingança contra o meu pai.
- Posso simplesmente não usá-la mais para chegar ao meu objetivo? – propôs - Não quero mais fazê-la sofrer.
- Não? – eu ri, incrédula – Tem noção do que está me dizendo, Gabe?
- Eu não sei... Às vezes acho que sim, outras que não. Estou confuso, porque não sei o que fazer, nem como agir. Só sei que... Sinto a sua falta... Pra caralho! Não sei como ser afetuoso ou demonstrar como realmente me importo. Porque... Faz muito tempo que não faço isto... Mais precisamente dez anos.
- Preciso de um tempo, Gabe. E você também.
- Não, eu não preciso de um tempo.
- Sim, precisa. Porque tem que pesar na balança o que é mais importante para você: eu ou Mônica.
- Como assim? – Franziu a testa.
- Porque se quiser ficar comigo, terá que esquecer a morte dela e as circunstâncias nas quais aconteceram, já que envolve meu pai, a seu ver.
- Sua culpa recai toda sobre mim, não é mesmo? Acha que não sofri com esta parte também? Acha que foi fácil para mim?
- Acho que você não tinha nada mais interessante para fazer depois que ela se foi e decidiu encontrar alguém para ferrar, pois lhe faltou coragem para seguir em frente. E quer saber? Estou me fodendo para Mônica! – Fui sincera – Não queria, mas tenho raiva dela... Porque por conta deste seu sentimento, meu pai está ferrado, e também porque... Ela teve algo de você que talvez nenhuma outra pessoa tenha... Amor e um filho.
Gabe abaixou a cabeça e fiquei a pensar o que passava na sua mente.

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