- Esqueça, Gabe! – pedi – Traga o chá e está tudo bem. – Garanti.
- Não, não está tudo bem. – Ele contestou.
- O chá. – Finalizei e ela saiu, visivelmente lamentando o ocorrido – Estou acostumada – expliquei a Gabe – É bem difícil encontrar algo para diabéticos em qualquer lugar.
- Pois bem, irei abrir um restaurante para diabéticos. E também uma cafeteria. – Disse como se fosse algo tão fácil como “vou ali usar o banheiro e já volto”.
Suspirei, resignada e perguntei de forma direta:
- O que quer comigo? Como me achou aqui?
- Eu vim buscar Rarith. E achei tê-la visto. Então ela confirmou... Que está trabalhando na enfermaria. No entanto você não pode ver sangue. Como conseguiu este emprego?
- Foi simples: enviei um currículo e fui chamada. Realmente não gosto de sangue, mas precisarei me submeter a isto, se for o caso. Preciso do emprego.
- Não, você não precisa. É a minha esposa.
- Em breve não serei mais, Gabe.
- Eu não lhe darei o divórcio.
- Não pode me obrigar a ficar casada com você.
- Sim, eu posso.
- Não importa o tipo de ameaça que faça, Gabe... Não voltarei a ser sua esposa.
- O que eu fiz, porra?
Eu não contive o riso. Era muita hipocrisia:
- Sinceramente, não irei listar toda a porra que você fez e está ciente. Portanto, limitar-me-ei a dizer que não quero e pronto.
- Não, Olívia. Eu não aceitarei seu pedido de divórcio. – Reiterou.
- Por que, Gabe? Por que se nega a me dar o divórcio? Ainda não se vingou o suficiente do meu pai? Falta o principal, que é vê-lo morto? Eu achei que conseguiria ir até o fim, mas não tenho estômago para isto. Você me machucou...
- Por que a machuquei, Olívia?
- Você é tão hipócrita!
- Me diga com todas as palavras... Por favor. Por que se saiu machucada disto tudo?
Porque eu amo você, porra! E maltratou meu coração a cada dia, o deixando completamente destruído.
Não, eu não tinha coragem de confessar meus sentimentos. E jamais teria.
Respirei fundo e tentei encontrar as palavras certas:
- Estou tentando seguir com a minha vida. Faça o mesmo!
- Pare de trabalhar. Eu lhe dou uma mesada.
Gargalhei, não me contendo:
- Para me jogar o resto da vida na cara, como faz com Jorel?
- Caralho, Olívia... Me ajude a agir diferente. Me ensine a ser uma pessoa melhor. Eu jamais conseguirei sem você!
- Agora que sabe que estou trabalhando na escola de Rarith pretende ficar me seguindo? Nunca se importou comigo, Gabe. Sempre deixou claro que era só sexo. Por que agora sequer fala sobre este assunto?
- Quer falar sobre sexo, chuchu? – sorriu, recostando-se para trás, de forma debochada.
Senti o sangue subir à minha face. Talvez eu não tivesse sabido me expressar direito.
- Quero falar sobre sentimentos, Gabe.
- Sentimentos? – ele afrouxou a gravata, parecendo ficar incomodado.
O chá chegou e por alguns minutos nos distraímos. Depois que Gabe bebeu o primeiro gole, o encarei:
- Sentimentos tipo... Vingança.
O silêncio dele durou tempo o suficiente para eu me certificar de que não voltaria atrás em sua obsessão por meu pai.
- Eu... Poderia dizer que sim, mas não consigo. E estou sendo sincero, chuchu.

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