Eu ri:
- É só biscoito com manteiga.
- Nunca comi isto na vida.
- Biscoito com manteiga?
- Biscoito salgado.
- Quem nunca comeu biscoito salgado? – Ri, incrédula.
- Eu! – Confessou de forma séria.
- Quando eu era criança tinha dias que era só o que eu tinha para comer – me ouvi confessando – E sempre dizia para mim mesma que quando crescesse nunca comeria isto de novo – olhei para o biscoito quadrado recheado de manteiga que estava na altura da minha boca – Mas foi uma das coisas das quais não consegui me livrar. Eles são bons acompanhados de patês ou até mesmo manteiga.
Gabe pegou o biscoito novamente da minha mão e mordeu:
- Você é boa nisto... De fazer biscoitos.
- Devolve meu biscoito! – Falei de forma séria.
Gabe sorriu e pôs na minha frente, obrigando-me a abrir a boca, pondo gentilmente dentro dela, com os olhos fixos nos meus. Aquilo seria um encontro romântico de café da manhã?
Ah, Gabe, já é um pouco tarde para isto! Não que eu não goste mais de você... Pelo contrário, parece que hoje amanheci o amando o dobro de ontem. E porra, ontem eu o amava demais.
A cozinheira pôs o café dele na mesa e Gabe endireitou a postura, ficando ereto, sem jeito, fingindo que nunca na vida comeu um biscoito que eu já tivesse mordido. Passei manteiga num outro biscoito e lhe ofereci. Gabe aceitou e disse, após a mordida.
- Não entendo, mas não tem o mesmo sabor dos outros... – Estreitou os olhos, parecendo querer encontrar uma explicação.
- Não? – Me surpreendi.
- Acho que entendi o motivo... Faltou o ingrediente secreto.
- Qual? Eu fiz igual...
- Este não veio da sua boca.
Me afoguei, pondo a mão na frente da boca, quase cuspindo tudo para fora. Ele disse mesmo aquilo. Que bicho mordeu Gabe Clifford aquela manhã? Ou melhor, na noite anterior?
Olhei no relógio e levantei:
- Preciso ir... Ou me atrasarei – virei as costas e antes de sair da cozinha o olhei – Sentiu medo de me perder, Gabe? – Perguntei de forma sincera.
- Na verdade não... Porque nunca irei perdê-la. – Sorriu.
Sorri de volta, de forma vitoriosa. Mal ele sabia o que o aguardava!
Antes que eu abrisse a porta principal da mansão para me dirigir ao carro, senti a mão de Gabe junto da minha. O olhei, confusa.
- Eu lhe darei uma carona.
Não contestei e aceitei a carona, afinal, sabia que certamente seria a primeira e última vez.
Enquanto estávamos no carro, a caminho da Clifford, ambos no banco de trás, sendo conduzidos pelo motorista dele, Gabe comentou:
- Naquela noite, na casa do lago... Eu deixei o relógio no seu quarto...
- O que Mônica lhe deu? – Perguntei, mesmo sabendo o óbvio.
- Sim.
- Não vi.
- Lembro de tê-lo jogado no chão.
- Devo ter passado por cima... E nem me dei em conta.
Gabe abaixou o olhar e a voz soou fraca quando mencionou:
- Está tudo bem.
- Sinto muito que o tenha deixado lá... Sei que era importante para você... Afinal, foi sua finada mamãezinha que deu. Ah, desculpe-me... Esqueci que foi sua ex.
- Ele já foi importante. Hoje não é tanto.
- Jura? Você me fez comprá-lo de volta e pedir o adiantamento de salário de quase uma vida para recuperá-lo. Vou morrer e ainda estarei devendo para a Clifford. – Morreria sem dizer que vendi um quadro que havia na casa.

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