POV GABE
Ouvi os aplausos dos repórteres, que sorriam enquanto me olhavam, pasmos. Mal sabiam que eu também estava estupefato com a notícia. Alguns inclusive levantaram, tamanha admiração pela minha atitude, que na verdade não tinha nada a ver comigo.
Desde quando eu faria doações a quem quer que fosse? E um tratamento gratuito de um ano? Nem que botassem na justiça ganhariam de bom grado!
Olívia me fodeu... Totalmente! E em todos os sentidos.
Mas por algum motivo, que eu nem sabia ao certo, me flagrei dando um meio sorriso, já que não tinha certeza se sabia sorrir da forma como todos faziam, sendo que há muito tempo eu não fazia aquele gesto que geralmente significava alegria. Em anos à frente da Clifford Indústria e Comércio de medicamentos eu jamais fui ovacionado daquela forma. E sabia que era apenas o começo. Logo a notícia se espalharia nos quatro cantos do mundo e aquilo poderia me trazer algum tipo de benefício, nem que fosse maior visibilidade, além do que já tinha.
- E... – Olívia chamou a atenção de todos para si novamente.
Como assim? Ainda não tinha acabado? O que ela faria agora? Faria a sede da empresa acolher os que se sentiram lesados? Diria que a Clifford pagaria um salário fixo eterno para os diabéticos?
Olívia retirou da bolsa uma caixa e abriu, retirando de dentro dela o relógio Patek Phillippe, mostrando a todos:
- Gabe Clifford estará fazendo um leilão deste relógio que vale em torno de 5 milhões de dólares. Este Patek Phillippe Caliber 89 tem um valor sentimental inestimável para Gabe, sendo que é a única lembrança de sua falecida mãezinha – me olhou e suspirou, como se realmente estivesse sentindo muito por fazer aquilo – Mas o CEO da Clifford está realmente disposto a ajudar todas as pessoas com diabetes do país. Então, usando como exemplo o leilão feito em 2019, organizado pela Christie’s, na Genebra, onde um relógio da mesma marca arrecadou 28 milhões de euros, o qual reverteu todo valor para a pesquisa na área da distrofia muscular, Gabe fará em prol das alas infantis de todos os hospitais do país que atendem crianças com diabetes. E se não bastasse, investirá um valor ainda maior na pesquisa de medicamentos contra a doença.
Senti o suor escorrendo pelas minhas costas, como se não houvesse condicionador de ar naquela sala. Minhas pernas fraquejaram e puxei uma cadeira, sentando-me, sem conseguir pronunciar uma palavra sequer. Nem vontade de matá-la eu tinha, porque sabia que não teria forças. Era como se eu tivesse num pesadelo que não conseguia sair.
- Senhor Clifford, isto é verdade? – Uma repórter jovem perguntou, como se, assim como eu, também não acreditasse em tudo que ouvia.
Me vi assentindo com um movimento de cabeça, totalmente atordoado.
- Por que a senhora é a portadora destas notícias? – um repórter perguntou.

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