POV GABE
Eu estava na minha casa, com o telefone na mão, incerto sobre mandar uma mensagem ou não para Olívia. Mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que fazer aquilo, para perguntar o que ela pretendia fazer. Sem contar que eu havia deixado o relógio no quarto dela na noite anterior e precisava dele. Ela já tinha o vendido uma vez e eu não sabia se tinha algum motivo para não fazer aquilo novo.
Decidido a perguntar se ela já estava em casa, fui digitar seu nome e abri sem querer uma página na internet, sentindo o mundo cair sobre a minha cabeça. A primeira notícia com que me deparei foi a seguinte: “Jorel Clifford e acompanhante sofrem acidente em Ferrari”.
Levantei, atordoado, sentindo as pernas trêmulas e liguei imediatamente para... Ingrid. Me dei em conta de que eu não tinha o número de telefone de ninguém da família de Olívia. Se ela e meu irmão estavam no hospital e impossibilitados de atender o telefone, se não através da minha secretária eu não tinha como contatar ninguém.
Enquanto ia para o hospital, dirigindo meu próprio carro, numa velocidade tão excessiva que temi em breve me acidentar e juntar-me a eles, lembrei que Rael poderia ter informações.
Mas não me atrevi a ligar, já que aquele filho da puta tinha sido um traidor, deixando uma amizade de anos por uma boceta. E afinal, eu já tinha o endereço do hospital onde eles estavam.
Guiando meu carro, tudo que eu conseguia pensar era no que faria se Olívia morresse. Seria injusto demais a vida me tirar outra mulher num acidente de trânsito. E desta vez numa outra via, outra concessionária de rodovia e outro motorista.
E Olívia morreria sem saber o quanto a amei. E que ela era a pessoa mais importante da minha vida. E que, embora não tivesse conseguido mudar minha essência primitiva e feroz, ainda assim tocou meu coração.
Por que porra eu não conseguia me abrir com ela e falar sobre o amor que eu sentia, como se algo me impedisse? O que eu temia, afinal? Rejeição eu sabia que não haveria, porque Chuchu gostava de mim e sempre deixou aquilo claro, embora também nunca tenha tocado na palavra amor. Talvez simplesmente a vergonha de expor meus sentimentos e me certificar de que era um fraco.
Eu consegui dizer a Mônica que a amava, embora tivesse sido somente uma vez. E a resposta dela foi: “Eu também”. Aquilo fez com que eu me sentisse ainda mais inseguro, o suficiente para nunca mais repetir aquela porra. No fim, talvez meu pai sempre tenha tido razão. O amor era uma merda, um sentimento fadado ao fracasso, que deixava a pessoa totalmente fora de si.
Mas uma coisa era certa: se acontece algo com meu chuchu, a vida perderia totalmente o sentido. E eu desistiria de me integrar às pessoas. Voltaria a me fechar no meu mundinho, como nunca deveria ter deixado de fazer.
Praticamente deixei o carro de qualquer jeito na frente do hospital, sequer me dando ao trabalho de estacioná-lo. Enquanto caminhava a largos passos em direção à recepção, fui parado por um homem:
- Senhor Clifford, tem notícias do seu irmão e a namorada para que eu possa divulgar o boletim médico deles na minha coluna do Jornal NN?
- A namorada dele? – Franzi a testa, confuso.
- Sim, a mulher que estava com ele no carro, a senhorita Abertton.
Engoli em seco, me dando em conta de que praticamente ninguém sabia que Olívia era minha esposa.

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