- Como? Você cravou uma haste de ferro?
Olívia assentiu e falou de forma tranquila:
- Minha mãe estava trabalhando – olhou para todos, pouco se importando com os julgamentos – No que ela melhor de fazia, se prostituindo – sorriu e depois me encarou – Me deixou em casa, sozinha. E pediu para a vizinha me observar vez ou outra. Eu e a filha da vizinha estávamos jogando bola pelo muro que separava as casas. Era uma espécie de jogo de vôlei onde o muro era a rede. A menina, numa das jogadas, rebateu com tanta força que a bola foi parar no pátio do outro lado da minha casa. Lembro com se fosse hoje... Havia um muro de tijolos e a parte de cima era com uma grade. A vontade de me divertir jogando era tanta que decidi pular para o outro lado e recuperar a bola. Não cheguei a conseguir pegá-la...
- Quem a ajudou? – A garota quis saber – Doeu muito?
- Dor? – ela sorriu – Eu acho que sim, doeu. Mas haviam tantas outras dores que eram piores... Principalmente as que doíam aqui – tocou o coração da menina.
- Quantos pontos você levou? – Rael quis saber – Chamaram os bombeiros?
- No lugar onde eu morava bombeiros era só para apagar incêndios. E acredite, os maiores deles eram dentro de nossas próprias casas, especialmente nas camas. Os vizinhos me ajudaram.
- Quando ganhei a guarda dela a levei ao médico e o ferimento ainda não estava totalmente curado. Os pontos foram feitos fora de um hospital. – Ernest explicou.
- Isto... É possível? – questionei Olívia – E os anestésicos para fazer os pontos?
- Vodca.
- Desde quando vodca é anestésico?
- Desde que alguém disse que era!
- Bebeu?
- Um gole ou dois... O restante foi aplicado no próprio ferimento, com o intuito de “limpar”... E jamais faça isto, docinho! – Olhou para a irmã.
- Quantos anos você tinha? – Jorel quis saber.
- Nove... Quase dez. A ferida era lavada diariamente com compressa de camomila e sabão amarelo. Após a secagem era aplicado babosa.
Eu queria fazer tantas outras perguntas... Mas não o fiz, porque sabia que todos ali estavam, assim como eu, estavam chocados com o que fizeram com meu chuchu no passado. E as outras cicatrizes, de que forma as teria ganhado?
As marcas que ela carregava no corpo demonstravam o quanto haviam sido mal curadas. E agora eu entendia um pouco... Era por conta dos pontos feitos de forma caseira... E brutal.
- Eu não quis assustá-la, ok? – ela garantiu para a aprendiz de adolescente – Só explicar que isto não é o fim do mundo e que logo esta coisinha aí vai virar uma simples lembrança... E uma história para contar no futuro.
- Eu sinto muito, Olívia! – A garota disse de forma triste.

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