Liana suspirou.
Não foi um suspiro de alívio, foi de cansaço.
Ela se afastou um pouco de Dante, o suficiente para quebrar o contato direto dos corpos, mas não o bastante para fugir dele de verdade. Ainda sentia o calor dele, a presença pesada, o cheiro que a prendia naquele espaço entre ir embora e ficar.
— Se você não está pronto pra contar… — começou, a voz mais baixa agora, menos acusatória — tudo bem.
Dante ergueu o olhar devagar.
Os olhos ainda carregavam sombras do passado que ele acabara de reviver. Sombras que não desapareciam só porque a música continuava tocando ou porque o restaurante estava bonito demais para comportar tanta coisa feia.
— Mas eu sei — Liana continuou. — Sei que você tá escondendo algo de mim.
Ela deu mais um passo para trás, apoiando a mão na mesa.
— E não é só sobre o seu irmão. É… maior.
O silêncio caiu entre eles como um peso.
Dante desviou o olhar primeiro, aquilo, por si só, já era uma resposta.
Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, e então voltou para a mesa, puxando a cadeira e se sentando novamente. O jantar estava praticamente intocado, velas ainda acesas. Tudo perfeitamente arrumado para uma noite que claramente não saira como ele havia planejado.
— Eu só queria… — começou, mas parou.
Engoliu em seco.
— Eu só queria que você esquecesse o Anton.
Liana franziu a testa levemente.
— Esquecesse?
— Sim — ele respondeu, direto. — Que ele desaparecesse das nossas vidas, da sua cabeça, do nosso caminho.
A forma como ele disse nosso fez algo se mexer dentro dela.
— Por quê? — perguntou.
Dante apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos.
— Porque tudo o que ele toca apodrece — respondeu, sem rodeios. — Porque ele destrói tudo o que ama e tudo o que odeia. Porque ele não sabe perder e porque… Porque eu não vou dividir você com ele Liana, não vou.
Liana o observou por alguns segundos.
Depois, contornou a mesa devagar e parou diante dele.
— Eu não sei explicar — disse, sincera. — Mas eu não consigo.
Dante ergueu o olhar.
— Não consegue o quê?
Ela hesitou por um segundo, então estendeu a mão e tocou a dele.
O gesto foi simples, carinhoso, intimo demais.
— Assim como eu não consigo esquecer você… — disse, os dedos se fechando levemente em torno da mão dele — eu também não consigo esquecer o Anton.
As palavras ficaram suspensas no ar.
O efeito foi imediato, o corpo de Dante ficou rígido. Um rosnado baixo vibrou no fundo do peito dele antes mesmo que percebesse. Os olhos escureceram, o azul quase engolido por algo mais antigo, mais feroz.
— Não diz isso — ele murmurou, a voz carregada.
— Eu não tô dizendo porque quero — Liana respondeu rápido. — Tô dizendo porque é verdade.
O lobo dentro dele se agitou.
“Ela está ligada a ele.”
“Ela sente.”
“Ela é nossa.”
“Mas não só nossa.”
A ideia fez a raiva subir como fogo.
Dante puxou a mão dela de volta para a mesa, os dedos apertando um pouco mais do que o necessário.
— Você sente alguma coisa por ele? — perguntou, baixo, perigoso.
Liana engoliu em seco.
— Não sei direito…
— Como assim? — insistiu.
Ela respirou fundo.
— É como se… — fechou os olhos por um instante, tentando encontrar palavras — mesmo sem querer… Eu quisesse saber se ele está bem… Mesmo sem querer eu as vezes o quero por perto…
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Dante soltou a mão dela devagar e se levantou.
Deu dois passos, depois mais um, passando a mão pelos cabelos como quem tenta conter algo prestes a explodir.
— Isso não deveria ser possível — murmurou.
— O quê?

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