O ar estava frio.
Frio de um jeito estranho, como se a madrugada tivesse enfiado as unhas na pele dela e não quisesse soltar. Liana abriu os olhos com dificuldade, piscando devagar, tentando entender onde estava… mas tudo parecia fora de lugar.
O céu começava a clarear. Aquela luz pálida de amanhecer, cinza, sem cor, filtrando por entre as árvores altas como dedos fantasmagóricos.
E então ela sentiu a terra úmida sob as costas, o cheiro de ferro, o gosto amargo na boca.
Seu corpo doía, cada músculo gritando como se ela tivesse corrido quilômetros..
— Que porra…? — a voz saiu num sussurro rouco.
Ela tentou se mexer, só então percebeu que estava completamente nua. Seu coração disparou tão forte que por um segundo achou que ia desmaiar ali mesmo. Liana se ergueu num sobressalto, o corpo tremendo, os braços tentando cobrir alguma coisa, como se isso fosse adiantar em alguma coisa no meio do nada.
A floresta estava ao redor, silenciosa demais como se um grande predador estivesse a espreita.
Só nesse momento Liana notou o sangue muito sangue. No chão, espalhado pela terra, formando manchas escuras que pareciam feridas abertas. Sangue nas folhas, nos galhos baixos, na lama e nela também.
O peito dela estava sujo de sangue seco, a barriga manchada, as pernas… Deus, as pernas estavam marcadas como se ela tivesse passado por dentro de espinhos, arrastada, caída, corrido descalça.
Mas ela não lembrava, não lembrava de nada.
A cabeça latejou, uma dor forte, pulsante, atrás dos olhos. Liana levou a mão à própria têmpora e gemeu baixo, tentando puxar uma memória, uma imagem, um motivo.
Nada vinha.
Só um vazio assustador.
Então um rosnado ecoou, baixo grave.
O corpo inteiro travou como se tivesse recebido um choque.
Ela virou o rosto devagar e viu o lobo ruivo.
Anton.
Gigante, com o pelo manchado de sangue, o peito subindo e descendo rápido demais, os olhos vermelhos queimando com raiva e… alguma coisa mais.
Dor.
Fúria.
Ele estava a poucos metros dela, as garras cravadas na terra, o corpo inclinado pra frente como se estivesse prestes a atacar.
Mas não era nela que ele olhava, era para trás dela, como se algo estivesse ali.
Liana engoliu em seco, sentiu a garganta fechar e então o rosnado veio de novo.
Dessa vez não era Anton.
Era outro.
Liana virou lentamente a cabeça para o outro lado e viu o lobo negro.
Dante.
Imenso, maior do que qualquer coisa que ela já tinha visto na vida.
O pelo tão escuro que parecia engolir a luz ao redor, seus olhos brilhavam em vermelho com fúria e ódio. A presença dele esmagava tudo, até o ar parecia mais pesado perto dele.
O lobo negro não olhou para Liana, olhou diretamente para Anton.
Como se Liana fosse um território marcado no meio daquela guerra.
O silêncio durou um segundo, um segundo longo demais, e então os dois se moveram.
Foi tão rápido que Liana mal conseguiu acompanhar. Anton saltou primeiro, o corpo ruivo voando como um raio entre as árvores, e Dante respondeu no mesmo instante, jogando o peso enorme contra ele com violência brutal.
Os dois colidiram no ar e o impacto foi tão forte que a terra tremeu.
Liana deu um grito baixo, arrastando o corpo pra trás, tentando se afastar, mas o chão estava escorregadio de sangue, e ela caiu de novo, se sujando ainda mais.
Eles rolavam pelo chão, mordidas e garras, rosnados tão altos que pareciam uivos de guerra.
Anton mordeu o pescoço de Dante.
Dante reagiu arrancando um pedaço de pele do ombro de Anton.
Liana tentou se levantar de novo, as mãos tremendo, o corpo fraco, e o medo voltou com tudo.
— PARA! — ela gritou, sem saber se eles ouviam. — PARA, PORRA!
Nenhum dos dois parou.
Era como se a presença dela ali… não importasse.
Ou pior.
Como se importasse demais.
O lobo negro se colocou entre ela e o ruivo mesmo no meio do ataque, sempre virando o corpo na direção dela, como se a prioridade fosse uma só: proteger.
Mesmo enquanto tentava matar.
O coração de Liana batia tão forte que parecia que ia explodir.
E então…
Ela sentiu um cheiro diferente, cmo carne em decomposição, sangue já apodrecido, cheiro de morte. Só quando ergueu os olhos desesperados em direção a mata que ela viu o monstro.
Ele era enorme.
Maior que os lobos, mas diferente.
Não andava como eles, andava em duas patas, o corpo era torto, musculoso demais, como se os ossos tivessem sido forçados a virar algo que não deveria existir. A pele parecia grossa, escura, cheia de cicatrizes, e o rosto parecia saido direto de um filme de terror. Focinho alongado, dentes grandes demais, olhos brilhando com uma inteligência doente.
Não era lobo.
Não era homem.
Era uma coisa no meio.

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