Suspiro, encarando minha amiga, que continua me olhando com aquela expressão de quem não vai me deixar sair daqui sem contar tudo.
— Então? — Ela pressiona, arqueando a sobrancelha. — Vai fingir que aquela foto não existe? Que você não estava literalmente nos braços do nosso chefe?
Passo a mão pelo rosto, exausta.
— Tiff…
— Não me venha com “Tiff” — ela me interrompe, apontando o dedo para mim. — Eu te conheço, Ivy. E sei quando você está escondendo algo. Então, desembucha. Porque, pelo pouco que sei, Lucas Sinclair não é conhecido por abraçar pessoas. Especialmente… funcionárias.
Mordo o lábio, sentindo o estômago embrulhar forte.
Quero falar. Preciso falar.
Preciso dividir isso com alguém antes que eu enlouqueça de vez. A vontade de contar é tanta que chega a doer.
Mas o contrato de confidencialidade ecoa na minha cabeça, me lembrando das consequências se eu abrir a boca.
— Ivy, sou sua amiga — Tiffany insiste, se sentando ao meu lado. — Então, seja lá o que for, você pode me contar.
Respiro fundo, fechando os olhos por um segundo.
— Se eu contar… você promete que não vai sair falando para ninguém?
— Claro. Prometo — responde rápido, agora claramente preocupada. — O que aconteceu?
— Eu… a gente se envolveu — confesso, baixinho. — Lucas e eu.
Quando abro os olhos, Tiffany me encara como se eu tivesse acabado de confessar que matei o gato da vizinha e enterrei no quintal.
— Vocês… — começa, mas a frase morre no meio do caminho. Ela pisca algumas vezes, tentando processar. — Espera. Vocês… se envolveram como?
— Nós nos beijamos. Mais de uma vez. E quase… — paro, sentindo o rosto esquentar. — Quase fomos além.
Ela fica em silêncio por um longo momento. Então leva a mão à boca e arregala os olhos de novo.
— Espera — diz, devagar. — Você e Lucas Sinclair… o nosso chefe… se beijaram?
Assinto, sem conseguir olhar para ela.
— Meu Deus, Ivy! — exclama, levantando as mãos. — Desde quando?
— Desde… aquela noite na boate — admito, finalmente levantando os olhos.
Tiffany franze as sobrancelhas.
— Boate… — repete, pensativa. Então arregala os olhos, lembrando. — Ahh! Aquela noite em que você sumiu e depois ficou toda misteriosa sobre o cara que te levou para a área VIP?
— Aquele cara era… o Lucas — murmuro, suspirando. — E só descobri dois dias depois, quando fui fazer a entrevista para a vaga de babá.
— Meu Deus! — ela exclama, se levantando do sofá. — Ivy! E… por que você nunca me contou?
— Ele me usou até cansar. E quando nos viram juntos, me descartou como se eu não fosse nada — ela diz, com a voz tremendo de leve. — Ainda teve a audácia de me demitir e dizer que fui eu quem me joguei em cima dele. Que eu era interesseira.
Engulo em seco.
— Homens poderosos nunca assumem a culpa, Ivy — Tiffany continua, sem piscar. — Nunca. Porque eles têm dinheiro, influência… E nós não temos nada. Então, quando a merda bater no ventilador, quem você acha que vai ser culpada?
— Eu — sussurro.
— Exatamente — ela confirma, soltando minha mão e se recostando no sofá. — E não para por aí. Se alguém descobrir… Ivy, você vai sair como a amante. A aproveitadora. A destruidora de lares. Não importa o que realmente aconteceu. Não importa se foi ele quem começou, se ele te perseguiu. A culpa vai cair no seu colo.
Fecho os olhos, sentindo as lágrimas queimarem. Porque ela está certa.
Completamente certa.
— E a Blair? — Ela pergunta. — Ela sabe?
— Acho que desconfia — respondo, abrindo os olhos. — Ela quer me demitir e só não fez ainda porque ele não deixou. Lucas disse que é ele quem decide, mas… não sei até quando isso a impedirá de fazer algo.
— Ivy, eu te amo, tá? — diz, pegando minha mão de novo. — Mas você precisa pensar muito bem no que está fazendo. Isso pode te destruir. Sua reputação, sua carreira, sua vida. Tudo.
— Eu sei — sussurro, a voz falhando. — Mas não sei como parar, Tiff. Não sei como simplesmente… esquecer.
Ela me puxa para um abraço apertado, e finalmente deixo as lágrimas caírem.
— Você não precisa esquecer — murmura, passando a mão pelas minhas costas. — Você precisa decidir se vale a pena. Se ficar com ele, sabendo que pode acabar mal, vale todo esse risco. Porque, Ivy… esse tipo de história quase nunca termina bem pra gente.

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