Já se passaram três dias desde o acidente.
Desde aquela conversa com Tiffany.
Desde que finalmente decidi o que deveria ter sido feito desde o começo: transformar minha relação com Lucas em algo estritamente profissional.
Sem mais tensão. Sem mais provocações. Sem mais… nada.
Porque Tiffany finalmente me fez enxergar o óbvio. E, se eu continuar nesse caminho, vou me ferrar sozinha.
Então, nesses últimos dias, fiz exatamente isso: evitei Lucas. E, considerando o tamanho da mansão, tenho conseguido.
Tomo café depois que ele sai para a empresa, janto na cozinha e, quando passa para dar um beijo de boa noite em Oliver, já estou no meu quarto.
É exaustivo, mas necessário.
E Blair? Bem, nem precisei me esforçar muito. Ela nunca fica com Oliver quando está em casa, o que dificilmente acontece, já que está sempre inventando algo para fazer fora daqui.
— Ivy, olha como o T-Rex é forte — Oliver grita, batendo o gesso no dinossauro de plástico. — Ele não tem medo de nada.
— Mas você deveria ter, sabia? — respondo, finalmente voltando à realidade. — Esse gesso pode quebrar e estragar toda a minha obra de arte.
Ele olha para o desenho improvisado de um dinossauro flutuando no espaço que fiz no gesso, assente e finalmente para de torturar o pobre T-Rex.
Olho para o relógio na parede. 15h47. Ainda faltam algumas horas para Lucas chegar. E, não. Não estou ansiosa para vê-lo.
Estou… nervosa com isso. Porque hoje decidi pedir folga à noite, aceitar o convite do Eric e sair um pouco de casa. Longe daqui.
Longe dele.
— Ivy? — Oliver me chama, puxando minha blusa. — Você tá bem?
Pisco, sorrindo para ele.
— Sim, estou, astronauta. Só… pensando em algumas coisas.
— Pensando no quê?
— Em coisas de adulto — respondo, pegando uma das naves e voltando a brincar com ele. — Nada importante.
Ele franze o nariz, dá de ombros e acerta o dinossauro contra a minha nave espacial.
E assim, iniciamos outra luta épica entre dinossauros intergalácticos e naves espaciais claramente mal equipadas para a missão.
— Isso é trapaça — reclamo quando o T-Rex “explode” minha nave. — Você disse que esse daí era bonzinho e ia para Marte.
— Bonzinho nada — ele rebate, com um sorrisinho perverso demais para a idade. — Ele só finge.
— Ah, claro. Um vilão disfarçado. Devia ter percebido — digo, fazendo a nave cair dramaticamente sobre o tapete. — Missão fracassada.
Oliver vibra, erguendo o T-Rex com o braço engessado como se tivesse acabado de salvar o universo.
— Eu ganhei! — exclama, levantando e fazendo sua dancinha engraçada da vitória.
Dou risada e, com toda a facilidade que só Oliver e todo o seu caos conseguem, me esqueço de todos os problemas lá fora.
Aqui na sala de brinquedos, o único problema real é sobreviver a dinossauros no espaço e a um pequeno astronauta com o braço engessado.
As horas passam, e minha ansiedade cresce a cada segundo. Até que, no final da tarde, ouço o som do carro de Lucas.
Meu estômago se contrai instantaneamente.
— Astronauta, vou descer rapidinho, tá? — digo, levantando. — Não sai daqui.
— Tá bom! — ele responde, distraído.
Desço as escadas devagar e, quando chego ao hall, vejo Lucas tirando o paletó, passando a mão pelos cabelos.
Quando me vê, ele para, me olha… e meu coração acelera, como sempre.
Foco, Ivy.
— Boa tarde, Sr. Sinclair — cumprimento, num tom completamente profissional. — Posso falar com o senhor?
Ele franze as sobrancelhas, mas assente, esperando que eu fale.
É claro que eu não arriscaria que Lucas inventasse mais alguma coisa e atrapalhasse de vez a minha saída.
Após algum tempo, a Sra. Mallory aparece à porta e avisa sobre o jantar dele.
Quase a beijo quando a governanta se oferece para ajudá-lo.
Santa Mallory! Se um dia falei mal da senhora… me perdoe.
Corro para o meu quarto e sigo direto para o closet, sem saber exatamente o que vestir.
Não quero parecer que estou tentando demais, mas também não quero parecer relaxada.
Por fim, escolho um vestido preto sem alças. Nada simples ou atraente demais. Só… eu.
Às 19h30, finalmente estou pronta.
Pego a bolsa, respiro fundo e, quando abro a porta do quarto… congelo.
Porque, do outro lado do corredor, prestes a entrar no quarto de Oliver, está Lucas.
Ele para, me encarando.
O olhar dele percorre lentamente meu corpo e, instantaneamente, escurece.
— Vai sair assim? — pergunta, baixo.
— Sim — respondo, olhando para o vestido. — Por quê? Tem algo errado com a minha roupa?
Ele não responde. Apenas trava o maxilar, como se estivesse se segurando para não dizer ou fazer algo.
— Aproveite a noite, Srta. Collins — murmura, por fim.
Assinto e me afasto, sem olhar para trás.
Mesmo sentindo o olhar dele queimando minhas costas.

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