Vinícius se manteve impassível, mas eu percebi o desespero no olhar dele. Mesmo assim, não consegui sentir pena. Na verdade, fiquei com raiva.
Foi como se todo o constrangimento da minha vida, todas as humilhações, tivessem se acumulado até esse momento, só esperando pra explodir.
— Sabe o que mais me irrita, doutor? Nem é o absurdo da proposta. É esse jeito de achar que pode comprar qualquer coisa, qualquer pessoa. — Minha voz ficou mais alta. — Você acha que sou tão descartável e que posso ser usada pra resolver seu problema e depois jogada fora… só porque eu preciso do dinheiro?
Vinícius ficou em silêncio.
— Tem razão… — levantei da cadeira, rangendo os dentes enquanto lia o valor total do contrato. Cem mil reais. — Talvez eu nunca ganhe tanto dinheiro… mas eu não estou à venda.
Me virei pra ir embora. Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Mas antes que eu chegasse na porta, ouvi o som dele se levantando da cadeira.
— Isabela, espera. Por favor. — A voz dele saiu baixa, quase implorando. — Eu só… eu não sei o que fazer.
A voz dele estava diferente. Não era aquela coisa arrogante de sempre, era quase um pedido de socorro. Fiquei parada com a mão na maçaneta, sem coragem de olhar pra trás.
— Eu sou um lixo — ele falou. — Eu sei disso… mas eu amo o Thales. Por mais que eu não tenha ideia de como demonstrar, eu amo aquele moleque. E ele gosta e confia em você. Talvez seja a única pessoa no mundo que consegue entender ele. Isabela... eu preciso de você... Eu nunca precisei de ninguém como preciso de você agora.
Soltei a maçaneta devagar. Senti meu rosto esquentar.
Eu estava sentindo compaixão por um CEO milionário.
Eu odeio sentir pena de homem rico e bonito. Mas, de repente, enxerguei o Vinícius pelo que ele realmente parecia ser… Um cara fodido, desesperado, tentando não perder alguém que amava.
Vinícius veio até mim e eu caí na besteira de olhar pra ele… nunca vi um homem daquele tamanho parecer tão pequeno. Ele esticou a mão, hesitou, depois pegou meu braço com uma delicadeza que não combinava com o tom de voz que usava normalmente. O toque dele era leve, delicado.
Eu não sabia o que fazer. Quis puxar o braço de volta, mas fiquei paralisada. Os olhos dele estavam úmidos, vermelhos de quem passou a noite em claro.
— Não precisa aceitar agora — ele disse, a voz saindo num fio rouco. — Mas, por favor, pensa nisso. Eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa, Isabela.
Ouvir meu nome saindo da boca dele me desmontou. Ouví-lo tão vulnerável, suplicando pela minha ajuda, me fez sentir coisas que eu nem sabia que era capaz de sentir — e me odiei por isso.
Eu era uma idiota.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, a porta se abriu sem cerimônia. Uma mulher entrou, e o ar da sala mudou imediatamente.
Loira. Perfeita. O tipo de mulher que parecia ter sido criada em um laboratório só pra fazer outras mulheres se sentirem uma merda.
O cabelo caía em ondas naturais perfeitas. Rosto simétrico, maquiagem impecável.
Vinícius soltou meu braço num reflexo, se afastando de mim como se eu queimasse.
Claro.
— Vini! — A mulher sorriu, ignorando completamente minha existência enquanto se jogava no pescoço dele. — Márcio me disse que você tava aqui sozinho. Vim fazer uma visitinha.
Ela o beijou no rosto, demorando mais tempo do que o necessário, e só então se virou pra mim. O sorriso continuava no rosto, mas os olhos azuis eram frios.
— Ué… — ela me olhou de cima a baixo, como se estivesse analisando um inseto raro. — Quem é essa?
Vinícius pigarreou, endireitando a postura.
— Karina, essa é a Isabela. Isabela, minha… amiga, Karina.

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