Narradora.
Na sala, o clima continuava leve, mas a porta pesada de carvalho do escritório se fechou logo em seguida com um baque surdo - marcando o limite exato onde o conforto suave da sala dava lugar à tensão de verdades que ainda estavam por vir.
O baque seco da porta de carvalho do escritório selou a transição entre o aconchego de minutos antes e a difícil conversa que teriam pela frente. O estalo da madeira ecoou no corredor longo, extinguindo o som distante das risadas na sala de estar.
A iluminação suave do cômodo de paredes revestidas em madeira e estantes repletas de tomos jurídicos parecia insuficiente para dissipar a névoa pesada que Axel trouxera consigo do galpão nos fundos da propriedade. O ar ali dentro cheirava a papel antigo, couro importado e ao prenúncio de um escândalo.
Cael caminhou em passos largos até a sua mesa de mogno, contornando o móvel e parando de pé, com as duas mãos espalmadas sobre a superfície polida. Ele não se sentou. As costas da camisa de linho estavam tensas, desenhando a rigidez de seus ombros. Não havia espaço para relaxar. Os olhos azuis do magnata perderam qualquer vestígio do calor ou afeto de minutos atrás, endurecendo como duas pedras de gelo.
- Vamos direto ao ponto, Axel - a voz de Cael ressoou grave, cortando o silêncio e vibrando contra os painéis da parede. - O que os dois vermes soltaram no galpão?
Axel Stone caminhou devagar pelo tapete escuro, sem pressa alguma. Retirou o bloco de anotações em capa de couro gasto do bolso interno do paletó, jogando-o com um baque surdo sobre a mesa de Cael. O estalo do couro no mogno fez a poeira flutuar sob a luz do abajur.
- Eles cantaram como dois passaros assustados, meu caro - Axel começou, acomodando-se em uma das poltronas de couro sem pedir licença e cruzando uma perna sobre o joelho com a fluidez de quem está em casa. - O medo da morte e de uma cela fria faz milagres pela memória de gente podre. Mas preciso admitir... o buraco é infinitamente mais fundo do que você ou a senhorita Brooks imaginavam.
Cael franziu o cenho, a linha da mandíbula travada enquanto seu peito subia e descia em uma respiração pausada.
- Fala logo.
- Vamos começar pelas acusações imediatas, só para você ter certeza de que o Arthur e a Celeste não verão a cor do sol pelos próximos trinta anos - Axel abriu o bloco, passando o indicador devagar pelos tópicos anotados com sua caligrafia precisa. - O homicídio da matriarca da família, a avó da Hannah. Está confirmado. O próprio Arthur entregou o médico da família, um tal de Dr. Harold. A Celeste pagava uma propina gorda mensal para ele adulterar os exames de sangue da idosa e atestar 'insuficiência cardíaca por idade avançada'. A senhora descobriu que a Hannah tinha sido comprada, encontrou os papéis antigos da maternidade Saint Jude e começou a chantagear a Celeste. A solução da sua 'sogra' foi envenená-la aos poucos.
Cael soltou um arfar pesado, fechando os punhos sobre a mesa com tanta força que as articulações dos dedos ficaram brancas.
- Monstros. E a maternidade? Onde a Hannah entra nisso?
- A história oficial que a Celeste sustentava era a de que havia comprado um bebê qualquer por cinquenta mil dólares de uma adolescente desesperada no banheiro da Saint Jude há vinte e três anos - Axel fez uma pausa dramática, o olhar cinzento e perspicaz cravando-se no de Cael. - Mas a verdade é muito mais sombria do que isso, velho amigo.
Axel fez outra pausa, enfiando a mão no bolso interno do paletó para puxar um maço de cigarros e um esqueiro de prata. Com gestos lentos e calculados, sacou um cigarro.
- Aceita um? - ele ofereceu o maço a Cael.
- Nem fodendo - disse Cael, revirando os olhos e soltando um estalo com a língua, uma mania que ele havia aprendido com Hannah mesmo que detestasse admitir em voz alta. - A Hannah me faz dormir no canil com os cachorros se sentir cheiro de nicotina em mim.
Axel soltou uma gargalhada baixa e rouca antes de riscar o fósforo, dando um longo trago no cigarro, prendendo a fumaça no peito por alguns segundos e soltando-a novamente em uma espiral cinzenta que subiu em direção ao teto.
- Mulheres... - Ele sorriu, balançando a cabeça com um deboche leve. - Mas voltando ao que interessa... você precisa saber de duas coisas importantes nessa história, Cael. A primeira é que a garota de quinze anos que deu à luz naquele banheiro nunca sequer teve a chance de ver o rosto da própria filha. Ela não vendeu a Hannah. Não havia como, já que a Celeste confirmou que a garota estava totalmente desacordada.
Axel fez outra pausa, dando mais uma tragada no cigarro até que a ponta incandescente brilhasse no escuro antes de continuar.
- A criança foi tirada dela sem que ela ao menos tivesse a chance de ouvir o primeiro choro - ele disse, e desta vez dava para notar um tom sutil de indignação em suas palavras habitualmente cínicas. - A segunda coisa, meu amigo, é que a mãe biológica da sua garota não era uma bastarda qualquer. Ela deu entrada escondida, pelos fundos do hospital, sangrando muito. Deu à luz no chão do banheiro e perdeu a consciência momentos depois. A enfermeira-chefe da época, uma mulher chamada Valerie Kensington - que hoje opera uma clínica clandestina bem sujeira na região de Creemore -, foi quem fez o parto. E também foi ela quem entregou a recém-nascida nas mãos da Celeste por um maço de notas riscadas.
Cael finalmente recuou, encostando a coluna no espaldar alto da cadeira de couro e cruzando os braços sobre o peito. A mente brilhante e fria do empresário já começava a cruzar os pontos, ligando os nomes, o dinheiro e as influências, mas ele esperou pelo golpe final.
- Eu sabia que essa história estava mal contada - Cael rosnou de indignação, o tom perigoso refletindo a raiva contida. - E essa garota? A mãe da Hannah... onde ela está agora?
Axel inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e deixando a fumaça do cigarro escorrer entre os dentes.
- Sumiu - disse Axel, com uma indiferença calculada, como se falasse do tempo. - Ninguém sabe o paradeiro atual, mas meus homens já estão nas ruas investigando cada rastro. Segundo a Celeste, a garota usava apenas uma correntinha fina de prata com uma medalha. Tinha um brasão antigo gravado na frente e um nome no verso. Era a única coisa que parecia identificá-la. A Celeste jogou a peça no fundo de um cofre no antigo escritório dela para apagar qualquer rastro de origem. Mas, sob um pouco de pressão no galpão, ela me deu o nome.

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