KALEL
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Eu não consegui mais me concentrar no trabalho, eu não atendi direito as pacientes, a minha cabeça estava em outra atmosfera, eu não conseguia esquecer a vagina da Sofia, e o gemido dela ficou ecoando na minha mente, eu estava me deixando levar pelo o que eu mais temia, estava sendo aterrorizado pelos meus desejos.
Como se não bastasse ter tido um dia infernal de trabalho, a primeira coisas que vi ao chegar em casa, foi a cara fechada da Valentina que estava jantando e ela se levantou assim que me viu entrar na cozinha.
— Ei mocinha, não tá me vendo aqui não?
Valentina: Estou, e é exatamente por isso que estou me retirando pra não afetar a sua privacidade.
— Valentina, não tente distorcer a minha fala, você sabe muito bem ao que eu estava me referindo hoje pela manhã.
Ela olhou pra mim com mágoa, nem parecia a filha amorosa que sempre foi.
Valentina: Você sabia que a Sofia passa por vários problemas em casa com os pais dela e é por isso que ela prefere está aqui do que lá? Sabia que o pai e a mãe dela não dão a mínima atenção pra ela? Que se ela morresse hoje, eles não estariam nem aí? A Sofia nunca quis falar sobre a família dela comigo por vergonha, ela nunca me levou lá porque os pais dela não são amorosos e atenciosos como você é comigo, e hoje ela se viu obrigada a falar desse assunto que a machuca tanto apenas pra justificar que ama mais a nossa família do que a dela, agora me diz pai, você que vive trancado nesse escritório, ou no quarto quando não está trabalhando, muito antes da Sofia aparecer na minha vida, que tipo de privacidade você estava deixando de ter? O que você ganhou em humilhar a garota aqui, no único lugar que ela realmente se sente bem? Eu não tenho mãe, mas tenho você, mas a situação dela é bem pior do que a minha, pois ela é órfã de pais vivos, a ausência de amor deve ser bem pior do que a morte.
Ela saiu da cozinha e eu ouvi o som das pisadas dela subindo as escadas.
Eu fiquei parado, olhando pro meio do nada, tentando organizar na cabeça tudo o que ela havia acabado de me falar, e eu me senti culpado.
Eu estava vivendo coisas que eu jamais imaginei viver, passando por coisas que jamais imaginei passar, lidando com sentimentos que jamais imaginei sentir, e tendo que fazer escolhas que jamais imaginei fazer.
Eu passei pela porta do quarto da Valentina antes de entrar no meu quarto e ouvi ela chorando, eu queria contar a verdade pra ela mas não podia, eu não queria vê-la ainda mais triste do que já estava.
Tudo o que eu queria era proteger a nossa família, eu tinha certeza que a Sofia iria fazer um estrago em nossas vidas.
Eu fui pro meu quarto, e me acovardei diante da tristeza da minha filha, eu não tinha como voltar atrás na minha decisão.
— Eu ainda terei que ver o exame da Sofia amanhã, que inferno.
Falei enquanto tirava a roupa que já estava me sufocando.
Eu tomei um banho e mesmo com fome eu optei por não jantar, fiquei no quarto e procurei dormir, pois essa era a única forma de silenciar a minha mente.

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