Zoé Santos apoiava o braço, com preguiça, na janela do carro. A luz intensa da manhã delineava os traços impecáveis de seu rosto.
Os cílios negros, longos e retos, projetavam uma sombra sutil sobre as pálpebras, com um toque de acidez.
Onde a claridade era mais forte, aquele rosto parecia quase irreal de tão belo.
Talita Santos apertava os dedos, um brilho de inveja piscando em seu olhar.
Ela piscou devagar, logo escondendo a expressão.
Zoé Santos virou levemente a cabeça, encarando Talita Santos, um sorriso torto e enigmático curvando seus lábios.
— Não é nada demais? — disse, displicente, tamborilando os dedos. — A chateada não é você. Vai usar meu problema pra bancar a generosa?
O rosto de Talita Santos empalideceu de repente; ela abriu a boca, hesitante.
— ...Desculpa, Zoé. Não foi isso que eu quis dizer, não fica pensando besteira. Não fica chateada, por favor.
Zoé Santos soltou um riso curto:
— Pelo visto, quem tá chateada é você.
— Eu não...
— Falei que você tá fingindo ser generosa e já ficou abalada. Se eu dissesse que você é cruel, será que aguentaria? — Zoé arqueou as sobrancelhas, a expressão indiferente, mas com uma ironia sutil e cortante.
As pupilas de Talita Santos se contraíram.
De repente, teve a impressão de que Zoé Santos já sabia que fora ela quem deixara os dados dela expostos para os colegas.
Mas ela tinha sido tão discreta, nem tocara no assunto diretamente.
E mesmo que Zoé Santos suspeitasse, o que poderia fazer?
— Eu não sou das mais tolerantes, guardo rancor sim. Lembra disso. — A voz de Zoé Santos saiu baixa e leve, o olhar deslizando até Joana. — Então, me perdoar?
Ela esboçou um sorriso debochado, balançando a cabeça devagar, num gesto insolente:
— Não posso.
O rosto de Joana perdeu toda a cor.
Talita Santos apertou ainda mais os dedos. Sempre que queria algo, bastava pedir e conseguia.
Mas, pela primeira vez, fracassava — e justamente diante de Zoé Santos.
Talita baixou um pouco a cabeça, escondendo a raiva e a frustração que lhe passaram rapidamente pelos olhos.
Afinal, Zoé só estava ali graças a ela, que permitira sua entrada no Colégio Cidade H. Como podia se comportar assim, sem um pingo de gratidão?
Gente da Vila N... será que não entende o que é retribuir um favor?
...
Ao chegar à escola, Zoé foi direto ao mercado e comprou uma lata de Coca gelada.
— Zoé, não precisa mais comprar Coca, viu? Todo dia de manhã, eu trago pra você na sala.
Zoé levantou levemente as sobrancelhas, lançando-lhe um olhar de lado.
A voz saiu límpida, distante, com um toque de preguiça.
— Se quer me conquistar, vai ser difícil — ela inclinou a cabeça, o sorriso um tanto malandro. — Melhor tentar outra pessoa, garotinho.
Fernando quis retrucar — afinal, ela era até mais nova que ele! — mas, encarando aqueles olhos negros e intensos, percebeu que era ele quem estava sendo esmagado.
A energia dela era avassaladora.
Ele observou Zoé abrir a Coca com uma mão só, o dedo puxando a lingueta com um estalo — um gesto absurdamente estiloso.
No pulso marcado, além do relógio metálico escuro, enrolava-se um fio dourado com um pequeno pingente oco, em forma de cabaça.
Parecia ter transformado um colar em pulseira.
O ouro brilhava, mas a pele dela era ainda mais luminosa.
Havia nela um ar espontâneo, selvagem, livre.
O coração de Fernando batia forte, e ele tentou disfarçar, dizendo com voz firme:
— Quem disse que quero te conquistar? Eu... eu só quero ser seu amigo mesmo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Zoé Santos:A Fênix de Cidade R
Tenham mais respeito com os leitores...
Quando o autor vai atualizar os cap?em outro app já tá no 319...