RENAN NARRANDO:
Após o jantar na casa dos pais da Duda, fui direto para o meu escritório com Erick e Cláudio. Eu estava ansioso, com uma sensação de poder correndo pelas minhas veias, embora a discussão no banheiro com Rodrigo ainda martelasse na minha cabeça. Ele precisava aprender que não sairia impune disso. E saber que Micaela estava grávida, que Rodrigo já tinha um filho, foi como um presente dos céus.
Meus pensamentos fervilhavam com as possibilidades.
— Então, o que temos nas escutas? — perguntei batendo os dedos na mesa, impaciente.
Erick conectou o laptop e começou a acessar o programa.
A tensão era palpável.
A ideia de ouvir as conversas daquela família corrupta, me deixava cheio de adrenalina. Rodrigo não fazia ideia do que estava por vir.
Mas a empolgação foi indo embora conforme o silêncio preenchia a sala. Apenas sons distantes, passos vagos, conversas sobre limpeza e organização.
Nenhuma informação útil.
— O que é isso? — perguntei com a voz seca. — O que diabos estou ouvindo?
Erick começou a suar, claramente nervoso. Ele gaguejou algo sobre as limitações do lugar, que não conseguiu acessar muitas áreas.
— Você colocou escuta no banheiro dos funcionários e no balcão da cozinha? No balcão da cozinha? — Eu gritei, sentindo a raiva crescer no peito. — Você só tinha uma chance de entrar no escritório e na casa daquela família, Erick! Uma maldita chance!
— Perdão chefe, mas os seguranças da casa ficaram de olho em todos os meus passos.
Cláudio tentou intervir, com a voz mais calma.
— Renan, não adianta ficar nervoso. Talvez seja melhor assim. As conversas daquela família são perigosas demais para nos envolvermos.
Revirei os olhos, irritado com sua complacência.
— Cala a boca, Cláudio. — Minha voz saiu de desprezo. — Erick, continue monitorando. Se ouvir qualquer coisa que seja minimamente importante, eu quero saber imediatamente. Entendeu?
Eu estava furioso, mas tentei respirar fundo. Foi nesse momento que meu telefone vibrou. Era Duda.
Olhei o nome dela piscando na tela e uma onda de alerta me atingiu.
Será que Rodrigo contou quem eu realmente era? Hesitei antes de atender, mas o tom de voz dela me acalmou. Duda não parecia preocupada ou desconfiada; ela queria o de sempre.
Queria ir para a cama comigo.
Claro que eu não iria perder mais uma noite de sexo com ela. Na verdade, eu gostaria de aproveitar ao máximo antes que meu plano fosse descoberto. Dei algumas ordens rápidas para Cláudio e Erick e saí do escritório, rumo à cobertura.
Ao chegar, não esperava encontrar Duda tão descontrolada. Seus olhos estavam cheios de mágoa e fúria, e algo em sua postura me fez congelar.
A mulher estava transformada.
Eu tentei manter a calma, mas Duda sabia exatamente como eu tirar o sério. As palavras dela me atingiam como facadas. E então, antes que eu pudesse me aproximar para contê-la, ela sacou uma arma.
Ela tinha uma arma.
Tudo aconteceu em câmera lenta. O som do tiro ecoou pelos meus ouvidos e me atingiu como uma marreta. Senti o impacto na clavícula e meu corpo cedeu, perdendo o equilíbrio.
Louca! Aquela mulher era uma louca!
A dor era insuportável, como se minha pele estivesse queimando com a bala alojada. Caí no chão, pressionando a clavícula, tentando conter o sangramento. A visão começou a embaçar, mas eu ainda consegui ver Duda, falando mais e mais na minha cabeça, sem nenhuma piedade.
Ela não parou por aí. Levou meus celulares, meu notebook, e me deixou ali, sangrando no chão, como se eu fosse nada.
Como se ela nunca tivesse sentido nada por mim.
Aquela maledetta não tinha coração.
Nunca teve.
Eu me enganei ao pensar que ela sentia algo verdadeiro por mim. Ela era uma Rodriguez Corleone, no fim das contas. Uma criminosa, psicopata, como todos naquela família.
Com esforço, tentei me arrastar até o interfone. Cada movimento parecia rasgar minha carne, mas eu não poderia morrer ali. Não assim.
— Agora já foi. Me diz, as escutas... elas tiveram algum resultado? — perguntei, tentando focar no que realmente importava.
Se pelo menos as escutas tivessem funcionado, isso poderia ser um avanço no plano.
Cláudio hesitou, e sua expressão mudou. Não era um bom sinal.
— Então... as escutas foram encontradas e desinstaladas antes que Erik pudesse ouvir algo de relevante. Os pais dela já sabem quem você é, Renan. Eu sabia que aquele jantar era arriscado demais. Você fodeu com tudo. Nós vamos morrer. — Cláudio estava visivelmente apavorado, sua voz tremia.
— Merda! Merda! — gritei, sentindo a frustração me consumir. — Não vamos morrer, calma porra! Tem que ter outro jeito, antes que eles cheguem até nós.
— Que jeito? Eles mandam nessa cidade, Renan! Já pode ter alguém nos vigiando aqui no hospital. Precisamos ir embora do México. — Cláudio falava com urgência, claramente com medo.
— Não, eu não vou embora agora... Rodrigo tem um filho, e Micaela está grávida. Podemos finalmente atingir ele de uma vez. — Eu sabia que essa era a nossa chance.
Rodrigo sempre se achou intocável, mas agora eu tinha uma fraqueza para explorar.
— Renan, você quer usar crianças inocentes? Agora chega! Eu vou comprar as passagens de avião para o nosso voo hoje. Se você quiser continuar com essa missão suicida, vai fazer isso sozinho. Eu não vou deixar meus filhos sem pai por causa desta vingança estúpida! — Cláudio estava fora de si, com o medo e o desespero estampados em sua voz.
Ele sempre foi mais cauteloso, mas eu não podia desistir agora.
— Se você quer ir embora, então vá, covarde! Eu e Erik podemos terminar tudo sozinhos. Cheguei perto demais, e agora que eles sabem sobre mim, preciso agir rápido. — falei, firme, olhando Cláudio nos olhos. — Mande o Erik ficar de prontidão próximo à casa do Rodrigo. Vou ter que sequestrar o filho dele.
— Renan, você não pode usar uma criança! — Cláudio parecia incrédulo, como se eu tivesse perdido completamente a razão.
— Eu não vou machucá-lo. Só quero dar um susto no Rodrigo, provar que ele não é intocável. Depois disso, prometo que vou embora. — falei com frieza.
Era um risco calculado, mas necessário. Rodrigo precisava sentir na pele o que era perder algo que ele amava.
— Você está louco, louco! Vou chamar uma enfermeira! — Cláudio se levantou, furioso, deixando claro que não concordava com nada disso.
Eu o observei sair do quarto, mas não me importava. Ele não entenderia. Eu estava perto demais para recuar agora.
Rodrigo pagaria, e com juros.

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