A situação de Ethan era difícil, assediavam-no na escola porque o seu pai tinha desposado uma mulher jovem; os mexericos corriam como pólvora e Camila não ajudava. Ao que parece, a tormenta não se tinha dissipado do todo.
Quando viu Ethan, Deanna tentou ajudá-lo com as feridas, mas o rapaz estava ainda zangado. E fê-la sentir triste novamente; o seu cavaleiro de brilhante armadura estava a receber os golpes por culpa dela. Como é que podia ser tudo tão complicado?
Depois do jantar ela foi ao quarto de Ethan.
«Sim, entra.»
«Ethan... Podemos falar?»
«Bom.»
«Eu lamento muito o que te ocorreu hoje. Queres contar-me?»
«Não.»
«Eu sinto-me culpada... Por favor?»
Ethan suspirou.
«Tu amas o papá?»
«Por suposto.»
«Esse gordo estúpido disse coisas feias da mamã, de ti e do papá... Todos me dizem coisas desagradáveis sobre vocês... Eu cansei-me.»
«Já vejo...»
«Eu temo que o papá se esqueça da mamã... Ainda me lembro dela.»
«O teu papá nunca esquecerá a Emily, garanto-te. Ele tem três fotografias viventes dela, não poderia.»
«Isso não te incomoda?»
«Por que é que o faria? Ethan, era a tua mamã. Ninguém poderá nunca a substituir, jamais. Nunca ninguém poderá fazer com que nenhum de vocês a esqueçam. Na verdade, lamento muito que te estejam a suceder estas coisas no colégio... Promete-me algo, queres?»
«O quê?»
«Tu já não tens que me defender, está bem? Eu não quero que te magoem assim outra vez por minha culpa.»
«E como é que eu faço isso?»
«Só ignora-os... Tarde ou cedo eles cansar-se-ão... Por favor, já não lutes por mim.»
Os problemas acumulavam-se um atrás do outro. Daniel tentava ignorá-los, mas estavam a começar a afetar a Deanna; o seu carácter estava a mudar. Já não cantava como costumava fazê-lo, não saía mais do que para casa da sua mãe. Estava ele a açambarcá-la?
Deanna desceu para o procurar ao seu escritório depois de falar com Ethan. Daniel estava prestes a iniciar outra noite maratónica de trabalho.
«Conseguiste falar com o Ethan?»
«Sim.»
«Estás bem?»
«Eu estou preocupada por ele...»
«São coisas de crianças, eventualmente passará.»
Ela recostou-se sobre o sofá e ficou calada. Estava oprimida, por tudo: Laura, Harry, Camila, Ethan... Tudo. Os rumores que a espreitavam todos os dias, as discussões... alguma vez terminaria?
«Sabes? Eu tenho estado a pensar na tua carreira.»
«O quê?»
«Disseram-me muitas vezes que tu tens talento e que seria uma pena que o desperdiçasses; eu não quero que o faças.»
«Deter-me alguns meses não me fará desperdiçá-lo.»
«Se cantar te faz feliz, faz. Tu não precisas da minha permissão, nem penso negar-ta. Podemos buscar a forma de que comeces a cantar profissionalmente; tu não precisas de terminar a Universidade para isso. Claro que podes regressar quando quiseres.»
«Eu gosto de estar contigo e com as crianças... Eu posso cantar em qualquer momento, não te preocupes por isso... Talvez no ano que entra, que Jonathan começará o colégio, poderei arranjar tempo para recuperar a Universidade...»
«Eu quero que sejas feliz.»
Deanna olhou para ele e encheu-se de ternura. Que homem tão estranho! Ele passava de um ataque de ciúmes furioso, a uma luxúria incontrolável, para terminar dando-lhe ânimo para que fizesse o que lhe agradasse. É que ele contrastava tanto. Quando o conheceu só dava ordens, agora pedia com respeito.
«Como é que tu podes ser assim?»

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