Depois da sua discussão com Deanna, a Harry estava a custar-lhe tudo. O trabalho aborrecia-o, Laura aborrecia-o, até a música começou a aborrecê-lo. Não conseguia tirar o seu olhar choroso da cabeça, a careta da sua boca triste. Culpa, ele sentia uma culpa que o torturava.
No decurso desses dias ele tentou muitas vezes ligar, mas nem sequer chegava a marcar o número dela; o que é que ele lhe ia dizer? Como é que se desculparia com ela?
Laura não sabia o que fazer ou a quem recorrer, o casamento que tanto quis estava a ir por água abaixo. Se isto continuasse era certo que depois de o bebé nascer tudo terminaria. A única coisa que lhe ocorreu foi recorrer a Camila, talvez ela pudesse falar com o seu filho e saber o que se passava com ele.
Ela chegou à casa sem avisar. Camila estava com Arlene e Beverly pondo-se em dia "socialmente". Quando a viu entrar com o seu rosto triste e uma mão no ventre levantou-se de imediato.
«Laura, não te esperava... Estás bem?»
«Eu lamento, Camila, não sabia que tinhas visitas.»
«Não te preocupes, querida. Olha essa cara! Sentes-te mal?», disse-lhe Arlene.
«Não, não... estou bem...»
«Senta-te, Laura, tu não estás bem», pediu-lhe Camila.
«Obrigada...»
«Diz-me o que se passa contigo.»
«Preciso de falar contigo sobre Harry, mas...»
«Não te preocupes, podes falar com confiança à frente de Arlene e Beverly.»
«Mas, é... muito pessoal.»
«Querida, somos todas mulheres e conhecemos o Harry desde que nasceu, tem confiança», Arlene só queria ouvir a coscuvilhice.
«Não sei o que se passa com Harry, desde a sua festa de aniversário ele está diferente... Estranho...»
«Estranho? O que é que esse menino está a fazer agora?»
«Não sei, não sei...»
A angústia apoderou-se dela e os seus olhos ameaçavam começar a chorar. Beverly permanecia em silêncio.
«Não chores, Laura. Por Deus! O que é que o meu filho te está a fazer?»
«Camila... eu creio que há outra mulher.»
«O quê?! Não pode ser!»
«Não encontro outra explicação... O que é que farei? O nosso filho nem sequer nasceu...»
Arlene levou a mão à boca e Beverly inclinou um pouco o corpo para a frente.
«Eu vou matá-lo, se o que dizes é certo, eu vou matá-lo.»
«Não tenho a certeza, mas pela forma como se tem estado a comportar parece que sim. Começou a beber de noite, está taciturno... já não temos intimidade...»
«O que descreves, Laura, é um desamor», Beverly era astuta.
«Um desamor?»
«Sim, Camila, um amor não correspondido. Se calhar está apaixonado por outra pessoa, mas pelo que a Laura diz não é correspondido... e dizes que tudo começou no dia do aniversário de Camila, Laura?»
«Sim... essa noite eu encontrei-o inconsciente no jardim. Ele bebeu toda a noite sem parar. Até Susan tentou detê-lo... Ele não é assim.»
«É verdade, o meu filho não é um grande bebedor. Mas ficar inconsciente é o cúmulo! Ele vai ouvir-me!»
«Na noite do aniversário de Deanna em casa de Daniel ele regressou com a cara fechada, nem sequer reunirmo-nos com os nossos amigos o animou... Esteve o tempo todo a esquivar-se deles, quase não lhes falava e não quis tocar em nada também... Quase não falamos, às vezes encontro-o na sala a meio da noite sentado a olhar para o nada...»

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