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Um Vício Irresistível romance Capítulo 429

Clarice apertou os punhos involuntariamente, com as unhas cravando fundo nas palmas das mãos, mas ela sequer percebeu a dor.

Ela fechou os olhos e tentou imaginar a cena de uma mulher sendo vítima de violência doméstica: móveis quebrados, um corpo coberto de hematomas e uma expressão de puro terror em olhos que não tinham para onde fugir.

E, além das agressões físicas, havia também a traição. O homem, além de violento, ainda cometia infidelidade. Era uma destruição brutal e implacável da dignidade e do espírito da vítima.

Essa traição era o golpe final, a pedra que esmagava o último resquício de força que a mulher tinha para resistir.

A vítima não aguentava mais viver naquele inferno. Queria o divórcio, queria se libertar. Mas esse desejo legítimo de recomeçar só acelerou sua tragédia.

O homem, desconfiado por natureza, não via problema nos próprios erros — nem nas agressões, nem nos casos extraconjugais. Para ele, o problema era a mulher. Quando ela pediu o divórcio, ele começou a suspeitar que o filho que ela carregava no ventre não era dele.

Essa paranoia absurda o consumiu, e foi o que o levou a tomar a decisão final: erguer a lâmina e tirar a vida da mulher.

Ao chegar nessa parte do relato, a respiração de Clarice ficou descompassada, e seu peito subia e descia de forma visível. Ela sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha, como se uma sombra vinda das profundezas do inferno tivesse tocado sua alma.

Ela não conseguia imaginar o tipo de frieza e crueldade que poderia levar alguém a cometer um ato tão desumano contra a pessoa com quem compartilhou uma vida, alguém que dormia ao seu lado todas as noites.

— Isso não é um ser humano! — Clarice murmurou, com a voz carregada de raiva e dor. Sua indignação parecia sufocá-la, apertando seu peito de maneira insuportável.

De repente, o toque do celular rompeu o silêncio, como uma sirene de alerta. Clarice levou um susto, sentindo o coração acelerar ainda mais.

Ela rapidamente saiu de seus pensamentos e atendeu o celular. Seu tom saiu ligeiramente urgente:

— Alô?

Do outro lado, uma voz feminina respondeu, leve e animada:

Ela clicou no e-mail e começou a ler. Cada palavra era como uma lâmina afiada, cortando fundo em sua empatia e no senso de dever como médica.

Enquanto lia os detalhes do caso, o quadro clínico da criança se desenhava em sua mente: um corpo frágil, com um coração tão debilitado quanto uma árvore antiga, corroída pelo tempo e pelas intempéries.

“Cardiopatia congênita.” Essas palavras pesadas ecoavam em sua mente. Elas representavam uma ameaça impiedosa, tirando de uma criança a chance de uma infância plena e despreocupada.

Clarice franziu a testa, e suas emoções transbordavam em seu olhar: compaixão, preocupação e o inabalável senso de responsabilidade que vinha com sua profissão.

— É muito jovem... Um transplante seria arriscado demais... — Ela murmurou, quase em um sussurro, enquanto processava as informações.

Ela sabia que estava diante de uma batalha sem garantias, onde qualquer erro poderia ser fatal. Mas, exatamente por isso, sentiu sua determinação crescer. Essa era uma guerra que ela precisava vencer.

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