Assim que a fúria esgotou seus pulmões, uma pontada dilacerante atingiu a região abaixo do abdômen de Luana. A dor estrangulou sua respiração. Ela cravou as mãos no flanco direito, o corpo curvando-se lentamente em agonia.
O rosto dela perdeu até o último vestígio de cor. Gotas espessas de suor escorreram por sua testa.
O cenho de Sebastião se franziu num vinco brutal:
— Luana, o que foi?
— Dói...
O murmúrio foi frágil, quase imperceptível.
O mundo girou e a escuridão invadiu sua visão. No instante em que seu corpo pendeu para o asfalto úmido, braços possessivos e imponentes a agarraram com firmeza esmagadora.
— Luana!
Antes de sucumbir ao vazio, um grito carregado de pavor — vindo do fundo da garganta de Sebastião — ecoou em seus ouvidos.
O tempo perdeu a métrica. Quando as pálpebras de Luana finalmente se abriram, suas pupilas pesadas acompanharam as gotas d'água castigando a vidraça do quarto.
O som da tempestade batendo contra o metal da janela embalava o silêncio. Um filete de água deslizava pelo vidro fosco.
A consciência retornou de forma abrupta. Ao baixar o olhar e deparar-se com os lençóis de tons púrpura, o reconhecimento a atingiu. Estava no hotel. E, pela configuração opressora do ambiente, aquele só poderia ser o quarto dele.
A prova irrefutável repousava no cabideiro: o sobretudo negro de Sebastião.
Ela forçou o corpo a se erguer, decidida a fugir dali. Mas o movimento brusco ativou a ferida no flanco direito. A dor a atingiu com a força de uma marreta, obrigando-a a se dobrar sobre si mesma na tentativa desesperada de buscar conforto.
A fechadura estalou. Sebastião cruzou o umbral da porta.
Ao flagrá-la de pé, ele cobriu a distância entre os dois em passos predatórios. Ignorando qualquer protesto, ele a tomou nos braços com uma força inquestionável e a depositou de volta no colchão, com uma suavidade que contrastava com sua aura violenta.
Em seguida, ele providenciou um chá para aquecer seu estômago e despejou os comprimidos na palma da mão dela:
— Remédios que o médico acabou de prescrever. Engula.
Luana exalou um suspiro fraco. O rosto era uma máscara de indiferença:
— Não tenho nada. Foi apenas uma queda de pressão por excesso de trabalho.
— Você não sofre apenas de anemia. Você...
A voz de Sebastião travou. Ele engoliu as palavras que rasgavam sua garganta.
Quando ela desmaiou sob a chuva, ele a trouxera para seus domínios e exigira que Zaqueu arrastasse um médico até ali. O laudo foi um golpe letal: a cicatriz da extirpação do rim de Luana não suportava o frio. Em dias de tempestade, a ausência do órgão causava uma agonia que flertava com a morte. E o rim que faltava nela... batia compassadamente dentro do corpo dele.
Seus sangues e suas carnes estavam misturados para a eternidade.
Velando o sono devastado da mulher, o imperador arrogante permitiu que as lágrimas transbordassem no escuro.
O toque agudo do celular rasgou o silêncio.
Sebastião apanhou o aparelho sobre a bancada de vidro. Quando fez menção de entregá-lo, o olhar predatório capturou as letras piscando na tela iluminada: Vasco.
Os ossos da mão que segurava o celular enrijeceram.
Luana arrancou o aparelho dos dedos dele e atendeu:
— Alô.
— Luana. Estela me avisou que você não dormiu em casa. Onde infernos você se meteu? Alguém te machucou?
A respiração de Vasco estava falha do outro lado da linha. O desespero beirava a insanidade.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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