Ao voltar para o imóvel alugado, Luana viu João parado sob a cortina de chuva. Bastava um passo para chegar ao beiral e se proteger da tempestade, mas ele escolheu permanecer ali, encharcado.
João a encarou. Em seu olhar úmido, misturavam-se mágoa e ódio, mas o que predominava era a fúria.
— O Sebastião foi embora. Está satisfeita agora, Luana?
Luana não tinha intenção de responder. Tentou passar por ele, mas teve o braço capturado com força. Ele a puxou para baixo do beiral, onde a água que escorria do telhado molhou o rosto de ambos.
João a observou de perto. Aquele rosto não possuía uma beleza avassaladora, mas fora capaz de deixar Sebastião completamente desnorteado, a ponto de ele nem sequer se importar com a perda do Grupo Mendes.
— Que tipo de mulher tem um coração de pedra como o seu?
João sentia uma injustiça profunda por Sebastião; seu peito doía pelo amigo.
Luana quis se explicar, mas de que adiantaria? O Grupo Mendes realmente acabara. Fora destruído pela confiança que Sebastião depositara nela. Não importava o que dissesse, as palavras seriam vazias diante dos fatos.
Diante do silêncio dela, João, consumido pela raiva, desferiu um soco na parede. O sangue de seus nós dos dedos se misturou à chuva e pingou no chão.
— Eu nunca imaginei que o Sebastião cairia por sua causa.
João virou o rosto com dificuldade, lutando contra o impulso de despedaçá-la:
— Cinco anos atrás, quando o Grupo Ramos teve problemas, todos os recursos que receberam vieram do Grupo Mendes.
Ao ver a expressão apática de Luana, João continuou:
— Eu sei, você odeia a crueldade do Sebastião naquela época. Odeia o fato de ele ter te negligenciado por causa da Vanessa. Naquele tempo, ele ainda não te amava, ou melhor, ainda não enxergava os próprios sentimentos com clareza. Luana, há cinco anos, foi você quem quis partir. Ele só queria te salvar. No fim, você entregou a ele apenas um cadáver. Consumido por uma dor insuportável, ele viveu como um morto-vivo, esperando pelo seu retorno. Se não fosse pelo Sílvio, ele já teria desistido da vida. Luana, você o odeia tanto assim? A ponto de desejar que ele perca tudo? A ponto de desejar a morte dele?
Cada palavra de João atingiu o peito de Luana como uma marretada, estilhaçando seu coração. O gosto amargo em sua boca a impedia de distinguir se o que engolia eram lágrimas ou a água da chuva.
— Agora, ele não tem mais nada. Exceto pelo Sílvio, ele perdeu tudo. E tudo isso é graças a você. Se ele te machucou cinco anos atrás, então agora ele já pagou o preço. Quem planta ventos, colhe tempestades, e ele colheu a dele.
João sorria, mas havia uma tristeza indescritível em sua expressão; ele lamentava profundamente por Sebastião:
— Se não fosse por você, o Sebastião não teria ofendido o Benício. Se não fosse por você, o Vasco não teria traído o Sebastião. Nuno, Fausto, Luís... todas essas pessoas têm ligações intrínsecas com a falência do Grupo Mendes. E qual é a relação de todas elas com você, Luana? Você sabe muito bem.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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