— Você garante isso? — perguntou Tereza, bebendo um pequeno gole de café.
— Sim, eu garanto.
— Muito bem, eu acredito em você. Mas já que me deu a sua palavra, na próxima vez que a sua mãe me tratar dessa forma, deixarei de considerá-la como uma figura de respeito e contra-atacarei. Espero que não me culpe caso ela saia ferida no processo. — declarou Tereza após um breve instante de silêncio.
Um leve espanto cruzou o rosto esculpido de Norberto. Quando se tratava de lidar com a mente alheia, Tereza demonstrava um brilhantismo estratégico. Por vezes, manobrava as palavras para encurralar o adversário a seu favor — exatamente como estava fazendo naquele instante.
Os dois continuaram ali, frente a frente, separados apenas pela mesa e pelas xícaras de café fumegante. Tereza não deu nem mais um gole, o excesso de açúcar havia deixado a bebida enjoativa para o seu paladar.
— Entendido. — Norberto concordou com a cabeça.
— Eu já vou indo. Ainda tenho coisas a resolver. — avisou Tereza, erguendo-se após checar o celular.
— Espere. — Norberto levantou-se abruptamente e segurou-a pelo pulso. — Eu ainda quero me explicar sobre a Hera. Espero que não haja mal-entendidos...
Tereza abaixou os olhos para a mão larga que a prendia, emitindo um claro sinal de aversão e desprezo no olhar.
— Eu nunca tive a intenção de ficar com ela. O afeto que lhe dou é estritamente o cuidado de um irmão para com a sua irmã. Quando ela chegou à Família Cardoso, ainda era muito jovem e digna de pena. Tinha acabado de perder o amor dos pais numa tragédia... E eu... — explicou Norberto, soltando a mão dela de imediato ao ser alvo daquele olhar aversivo.
— Norberto. — a voz de Tereza cortou a dele com frieza. — Não há problema em gostar de alguém, e também é perfeitamente compreensível que você se recuse a admitir. Mas você a mima e grita aos quatro ventos que são apenas irmãos, enquanto não consegue largá-la, mas também não tem coragem de assumi-la. Se você tem plena consciência de que não pode oferecer a ela um final feliz, por que não é mais rigoroso? Por que não a afastou logo na primeira vez em que ela tentou se aproximar? Você alimentou todas as esperanças e oportunidades dela.
A palidez tomou conta do rosto outrora altivo de Norberto, esvaindo-lhe as cores lentamente.
— Porque você também gosta dessa dinâmica. Não suporta a ideia de afastá-la ou, no fundo, deseja preservar essa ambiguidade, mantendo-a nem perto nem longe. — Tereza não lhe deu chance de argumentar. — Você se recusa a magoá-la, a decepcioná-la, e morre de medo de que ela deixe a Família Cardoso. Seduzir alguém enquanto foge da responsabilidade... Essa é a atitude mais deplorável que existe.
Norberto caiu sentado na cadeira, completamente paralisado e emudecido. As palavras de Tereza atuaram como um bisturi impiedoso, dissecando verdades obscuras que nem ele próprio tivera a coragem de examinar tão a fundo.
— Eu... não é isso, não é assim! Eu jamais nutri pensamentos tão repugnantes pela Hera. — Norberto reergueu-se de um salto, dominado por uma forte agitação. — Tereza, você não pode duvidar de mim dessa forma. Eu juro que sempre a tratei apenas como uma irmã mais nova!
Norberto sentiu-se como se estivesse amarrado ao pilar da vergonha pública. A frase resumia com precisão todas as suas ações dos últimos tempos. O que diabos ele andara fazendo?
Estava falhando miseravelmente, tanto perante a si próprio quanto aos outros.
Depois do trabalho, Tereza decidiu dar uma passada na casa da Família Leal. Precisava avaliar a gravidade da situação atual e descobrir se o irmão mais velho finalmente havia revelado tudo aos pais.
Mas, exatamente no momento em que ela rumava para lá, a atmosfera na Família Leal havia desabado num abismo de gelo.
Com as luzes da sala acesas, Ramiro jazia no sofá com as mãos na cabeça, evidenciando ter chorado copiosamente. Flávio estava afundado na poltrona ao lado, enquanto Filomena se apoiava na parede próxima. A empregada doméstica mal se atrevia a pisar lá para perguntar sobre o jantar. O ambiente parecia um lago completamente estagnado e morto.
De repente, uma série de passos apressados e frenéticos ecoou do lado de fora, marcados pelo som inconfundível de saltos agulha golpeando o chão.
— Ramiro, o que diabos você está fazendo, seu canalha miserável? — berrou histericamente a silhueta num vestido azul-safira que invadiu a sala logo em seguida. Era Ofélia Franco, com o cabelo emaranhado e os olhos vermelhos, cravando o seu olhar furioso em Ramiro.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......