Henrique, que estava acomodado ao lado dela, lançava olhares furtivos ao seu rosto. Desviava a atenção e logo voltava a observá-la, notando o evidente esgotamento da colega. Parecia que a falta de sono cobrava o seu preço.
Percebendo a atenção persistente vinda ao lado, Tereza virou a cabeça e perguntou: — O que você está olhando?
Henrique balançou a cabeça com um sorriso leve: — Nada, é só que você parece estar exausta. O que andou aprontando na noite passada?
Ela apenas deu um sorriso discreto, poupando os pormenores.
Sem graça de insistir no assunto, Henrique calou-se. Exatamente naquele momento, Norberto e o vice-presidente da Rosh adentraram a sala, acomodando-se nas últimas cadeiras da retaguarda.
O olhar de Henrique recaiu sobre Norberto, constatando as olheiras fundas que pesavam sob os olhos do homem. Pareciam até piores que as de Tereza. Todo o charme do executivo não era capaz de camuflar o seu aspecto fadigado.
O semblante de Henrique enrijeceu subitamente. Veio à sua mente a fofoca maldosa que escutara de algumas pessoas no elevador. Cochichavam que o Diretor Cardoso e a Dra. Leal haviam dormido juntos na noite anterior, disparando risinhos cheios de malícia e sugerindo que briga de marido e mulher sempre acabava em reconciliação na cama.
Os dedos dele apertaram a caneta com força, ao passo que seu olhar em direção a Tereza tornou-se um turbilhão de emoções contraditórias.
Teria sido mesmo esse o desfecho?
Quando a reunião foi oficialmente aberta, coube a Tereza expor o cronograma de implementação do projeto. Posicionada ao lado do projetor, mantinha uma compostura inabalável, destrinchando tudo de forma metódica, sem proferir uma única palavra desnecessária.
Do fundo da sala, Norberto mantinha o olhar pregado nela, seus olhos escuros transbordando sentimentos densos.
Assim que ela encerrou sua fala, o diretor técnico da Rosh assentiu: — O plano elaborado pela Dra. Leal está irretocável. Da nossa parte não há objeções e daremos total suporte para os próximos passos.
Tereza respondeu com gratidão sincera: — Muito obrigada.
Durante a pausa para o café, Henrique se encarregou da máquina e preparou um latte para Tereza. Enquanto a bebida escorria pela xícara, um velho ditado ecoou em sua mente: a saudade acende a paixão.
Com o cenho franzido, Henrique entregou a xícara fumegante a Tereza: — Fiz especialmente para você.
Ela abriu um sorriso cortês: — Agradeço.
Ele ainda aparentava ter algo engasgado na garganta, mas, ao perceber que ela já mergulhara nas discussões técnicas com os membros da Rosh, preferiu dar meia-volta e não intervir.
Postado diante da janela, ele observou o café escuro no seu próprio copo. Era uma bebida intragável de tão amarga, intocada por açúcar. Ainda assim, ele virou o líquido de um só gole.
Seria aquela viagem ao exterior o grande marco de reconciliação entre o casal?
A última rodada de negociações foi encerrada quando a noite já cobria o céu. Tereza e a equipe trocaram apertos de mão com os executivos da Rosh, cravando ali o final de sua empreitada diplomática. Norberto havia desaparecido durante a maior parte do dia, e só foi visto ao chegar em seu veículo particular para acompanhá-los na volta ao hotel. O voo de regresso estava agendado para o raiar do dia seguinte.
Pungente, o gosto do desprezo invadiu o âmago de Norberto. Uma combinação impiedosa de solidão, frustração e derrota.
Dominado por um misto de tristeza e conformismo, escorou a cabeça no travesseiro, sendo aos poucos tragado pelo cansaço do dia.
Nas primeiras horas da manhã, o jato particular rasgou as nuvens. A bordo da cabine, Tereza prosseguia implacável com as pendências do projeto, sem permitir que um único minuto de folga penetrasse sua rotina intensa. Henrique estava ao lado dela, debatendo relatórios. Um pouco mais distante dali, Norberto repousava em sua poltrona, entretido pelas páginas de uma revista do mercado financeiro.
Sua presença naquela viagem não se mostrava nada imprescindível, em forte contraste com a época em que acorrera às pressas em socorro a Hera, envolvendo-se a fundo nas negociações a ponto de consolidar aquele contrato de corpo e alma.
No entanto, o impacto causado por Tereza deixara marcas indeléveis em sua mente. A dualidade exata de dureza e encanto feminino repousava nela com maestria. Um arrepio sutil perpassou as cordas do coração do homem, vibrando tal como a agitação provocada pela queda de uma gota d'água num espelho-d'água silencioso.
O aniversário da matriarca finalmente despontou. O dia amanheceu festivo na antiga mansão da família, em clima de pura algazarra. A coordenação do evento contava com o serviço requintado de uma equipe gastronômica célebre em nível internacional, que cuidou pessoalmente de cada detalhe para as nove mesas que estariam repletas de convidados.
A frenética mobilização da cozinha para a festa remontava a três dias antes do evento. Dona Lídia voava em todas as direções, orquestrando as tarefas, enquanto seu rosto esbanjava um sorriso extasiado e resplandecente.
O fluxo de convidados não parava, reunindo grande parte dos laços de parentesco próximos e fraternos de amizade. Ao lado deles, perfilavam-se representantes essenciais dos vários grupos de parceiros comerciais atrelados ao Grupo Cardoso.
Radiante como há muito não se via, a avó Cardoso ostentava um vestido vermelho escuro adornado com delicados ideogramas que remetiam a votos de longa vida. Seus cabelos acinzentados exibiam um penteado inabalável. No pescoço, pesava um magnífico colar de esmeraldas de tonalidade imperial, em impecável sintonia com os brincos da mesma linhagem, compondo uma aura soberana e majestosa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......