— Hã?
— Ouvi direito?
— Você teria coragem de abrir mão dela?
— O sol nasceu no oeste hoje? Arturo, rápido, me dê um tapa.
Arturo não hesitou e desferiu um tapa nele. Caio cobriu o rosto atingido e esbravejou, enfurecido:
— Você bateu mesmo!
— Doeu? — Arturo parecia orgulhoso de si.
— Doeu pra caramba! Se o meu rosto bonito ficar deformado, você vai ter que casar comigo.
— Sinto muito, mas a minha orientação é bem tradicional. Não gosto de homens.
Norberto observava aquelas duas figuras cômicas dando um vexame. Já estava mais do que acostumado com isso e, após esperar que terminassem a brincadeira, voltou a perguntar com seriedade:
— E então? O que vocês acham?
— Cara, não tem a menor necessidade de nos perguntar isso. Qualquer um que tenha olhos sabe que o Eliseu gosta da Hera. Mas espera aí, você não gosta dela também? Você está praticamente se divorciando por causa dela, como é que, de repente... você mudou de atitude desse jeito?
Caio bateu as palmas das mãos e deu um pulo:
— Já sei! Norberto, você não quer mais se separar da Dra. Leal, não é verdade? Você a ama e nem percebeu. Você está perdido, caiu de novo nas garras do amor.
— Fale sério. — Norberto, no momento, parecia um gato que havia tido o rabo pisado, com uma expressão péssima no rosto: — De onde vocês tiraram que eu gosto da Hera? Eu sempre cuidei dela como se fosse minha irmã.
— Que irmão mais velho cuidaria de uma irmã desse jeito? Além do mais, vocês não têm nenhum laço de sangue e cresceram juntos. Ao longo de toda a vida, você a mimou e a protegeu como se fosse um tesouro precioso. Nós presenciamos tudo isso. E agora você vem dizer que não gosta dela? Nós não acreditamos. — Caio torceu os lábios, deixando claro que não seria enganado tão facilmente.
Norberto tomou um gole de sua bebida e riu de si mesmo:
— Talvez na juventude eu tenha tido algumas ilusões irreais, mas hoje eu cheguei a outra conclusão. Ela não deve ficar presa a algo que não vai dar em nada. Além disso, eu sei muito bem que nunca poderia haver nada entre nós. Só vou encará-la como uma irmã; era assim no passado, e será assim no futuro.
— Norberto, você está mentindo para si mesmo. Quando a vir com outro, não vá se encher de bebida, agir como louco e fazer o papel de quem perdeu o grande amor da vida, viu? Nós não vamos embarcar nesse drama. Mas, enfim, eu acho a Dra. Leal linda e super inteligente. Uma mulher talentosa e difícil de encontrar por aí. Tanto na aparência quanto na competência, vocês se igualam. A propósito, será que eu posso me arriscar a levar uma pedrada e perguntar uma coisa... se você e a Dra. Leal realmente se divorciarem, e eu decidir correr atrás dela... você me mataria? — Caio estava brincando de forma imprudente e à beira do perigo.
Norberto o fuzilou com o olhar, congelando-o instantaneamente.
Arturo esticou o braço e abraçou os ombros de Caio:
— Garoto, você tem muita coragem. Ousar cobiçar até mesmo a Dra. Leal? Cuidado, o Norberto ainda vai acabar te quebrando na porrada.
— Falando como alguém que já tem mais experiência, eu respondo que as suas palavras fazem sentido. — Arturo deu um tapinha no ombro de Caio: — Sem amor recíproco, ou quando um ama e o outro não, é só uma questão de tempo para o casamento dar errado. É só uma questão de ver quem aguenta aturar quem por mais tempo.
Norberto continuou com os lábios comprimidos, absorto em seus pensamentos.
— Vocês já viram de verdade o amor verdadeiro neste mundo? — Depois de um longo tempo, Norberto fez essa pergunta.
— Já ouvi falar, mas nunca vi. — Arturo respondeu com um sorriso.
— Já vi na televisão. — Caio soltou com humor, logo acrescentando: — Mas na TV é tudo invenção. Eu acredito que devemos separar casamento e amor. O amor é uma paixão que ferve em um instante, enquanto o casamento é um hábito que duas pessoas vão moldando aos poucos, na convivência do dia a dia. Para mim, os bons hábitos são muito mais fortes do que essa tal de paixão.
— Como é que você tem percepções tão profundas se nunca se casou? Rapaz, você deveria escrever um livro. — Pela primeira vez, Arturo percebeu que Caio, apesar de ser o mais novo deles, compreendia as filosofias da vida muito melhor, o que o fez perceber que não deveria mais subestimar o garoto.
Caio deu um sorriso amarelo, coçando a cabeça, e explicou:
— Essa é a conclusão a que cheguei observando o casamento dos meus pais. No começo, a minha mãe não gostava muito do meu pai, mas ele sempre foi atencioso, muito dedicado e conhecia as preferências dela melhor do que ninguém. Com o tempo, parecia que um já não conseguia mais viver sem o outro. Agora que os dois envelheceram, têm cada vez mais assunto, saem para passear juntos todos os dias, se divertem, e não levam os filhos. São só os dois curtindo juntos.
Norberto estava com os pensamentos em outro lugar, mas, ao ouvir Caio usar o relacionamento de seus pais como exemplo, viu algumas imagens embaçadas passando pela sua mente de forma fulgurante.
Refletindo sobre aqueles sete anos, não era como se ele e Tereza não tivessem nenhum tipo de interação. Quando a marca Apex foi criada, Tereza fora o alicerce tecnológico. Naquela época, Norberto ainda não havia assumido as rédeas da empresa; o seu irmão mais velho, Alarico, era aquele que estava sendo treinado com foco principal. O seu avô havia transferido Norberto para a Apex, e foi ele quem construiu sozinho aquela marca, antes de repassá-la para o gerenciamento de Alarico e ser reintegrado à administração central do grupo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......