Através da janela, as vozes de Julia e Kiara podiam ser ouvidas.
— A senhora Sabrina gosta de comer essas conservas. Feitas em casa, elas não ficam tão salgadas e não atrapalham na amamentação.
— Se não tiverem sal suficiente, estragam com facilidade — comentou Kiara.
— É só fazer em pequenas quantidades. Quando acabar, fazemos mais. De qualquer forma, temos muito tempo — disse Julia, sorrindo.
Henrique Ramos havia assumido a responsabilidade pelo bebê. A manhã inteira passou sem que ele ou Kiara precisassem intervir.
Pensando nisso, Julia lançou um olhar para a sala de estar. Henrique Ramos estava sentado lá, enquanta Lelê dormia e acordava no carrinho. Quando a menina chorava, era alimentada com a fórmula infantil. Henrique Ramos fazia questão de cuidar de tudo pessoalmente.
Kiara também olhou na direção da sala. Sentia uma profunda admiração ao ver um homem com o status elevado de Henrique Ramos cuidando do filho com as próprias mãos. Era algo raro de se ver!
— Ah, Sabrina voltou.
Ao ouvir o som da porta se abrindo, Kiara limpou as mãos no avental e seguiu caminho até o hall de entrada.
— Kiara.
Sabrina Batista trocava os sapatos.
— Lelê foi bonzinho?
Kiara sorriu de orelha a orelha.
— Foi um anjo. A manhã inteira, o Sr. Henrique...
Antes que pudesse terminar a frase, um baque surdo ecoou da sala de estar.
Henrique Ramos jogou um jornal sobre a mesa de centro, levantou-se e saiu com uma expressão sombria.
As veias saltavam na mão que segurava firmemente o celular.
— O que aconteceu? — perguntou Sabrina Batista, abaixando a voz. — Será que a Lelê fez bagunça e o irritou?
Julia balançou a cabeça apressadamente.
— Não! Ela esteve tão quietinha!
Além disso, Henrique Ramos havia tomado conta de Lelê a manhã toda.
Sem saber onde as coisas tinham dado errado, Kiara olhou para Julia.
Julia saiu da sala, igualmente confusa.
— O senhor deve ter tido algum contratempo no trabalho. A senhora deveria ir ver o pequeno mestre. Daqui a pouco, é só lavar as mãos para comermos.
Sabrina Batista observou as costas de Henrique Ramos desaparecerem no corredor antes de desviar o olhar. Ela arregaçou as mangas, foi ao banheiro lavar as mãos e, só então, caminhou até Lelê.
Pouco tempo depois, Julia serviu o almoço completo e fumegante na mesa.
— Jovem senhora, eu cuido do pequeno mestre. A senhora quer subir e chamar o senhor?
Mas, a cada novo encontro, ainda achava difícil desviar o olhar.
— O almoço... O almoço está pronto.
O calor úmido que emanava do corpo de Henrique Ramos a envolveu por completo.
— Ajude-me a pegar umas roupas.
— Ah? — exclamou Sabrina Batista.
Henrique Ramos apontou para o closet no canto direito do quarto.
— Minhas roupas foram encharcadas pelo xixi da Lelê.
— Ah, certo.
Ao ouvir que o culpado fora Lelê, Sabrina Batista caminhou prontamente em direção ao closet.
Os passos de Henrique Ramos a seguiam, num ritmo cadenciado, mas que exercia uma pressão opressiva e invisível.
O closet do homem era dominado pelas cores preto e branco, com raras peças coloridas penduradas em um canto.
— Vou sair em seguida. Pegue um terno.
Sabrina Batista escolheu uma camisa branca de alta-costura, um terno preto de caimento impecável e combinou tudo com uma gravata vinho.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ramos, ele não é seu filho!