POV LIANNA
Eu ainda sentia a pele queimando, não do banho quente de vestiário, mas do olhar dele.
Eu não conseguia tirar da cabeça o jeito como Zayden ficou parado atrás de mim, imóvel, respirando como se tivesse levado um soco, me olhando como se eu fosse alguma miragem que ele tinha rezado anos pra ver de novo.
Uma miragem nua.
O choque já tinha passado. O pânico também. O que invadia agora, com força total, era a fúria. Um tipo de fúria que fazia meu coração bater no pescoço.
Fechei meu armário com violência. Troquei de roupa com mãos trêmulas, tentando não socar nada. Enfiei o tênis sem sequer amarrar direito. Prendi o cabelo num rabo indignado. E quando me olhei no espelho por dois segundos, percebi:
Eu estava com aquela cara.
Aquela que eu passei ANOS tentando sufocar pra sobreviver a ele. A cara de alguém que tá por um fio.
Saí do vestiário como uma flecha. Corredor, sensação de eco, passos rápidos. Minha cabeça queimando em cada passo.
Eu precisava de respostas. Agora. Eu precisava arrancar aquilo dele. Precisava ouvir da boca dele o que diabos ele achou que estava fazendo entrando no vestiário feminino, me olhando nua como se tivesse algum direito.
Eu virei o corredor e quase bati no Adrian.
Ele piscou, surpreso.
— Lianna? — ele murmurou, se aproximando rápido. — Ei, você tá pálida. Aconteceu alguma coi—
— Onde tá o Zayden? — cortei, sem respirar.
Ele arregalou os olhos. Claramente sentiu a atmosfera. Eu devia estar com uma aura tão assassina que até o ar recuava.
— Eu… — Adrian levantou as mãos, apaziguador. — Tudo bem. Eu vi ele há uns dez minutos. Entrou na sala dele. Tava… hm… meio estranho.
— Obrigada. — murmurei, mais pra cumprir função do que por educação.
Passei por ele quase roçando o ombro, apressada, sem esperar reação.
Ele me chamou:
— Lianna—
Mas eu já estava longe demais pra ouvir. Ou pra querer ouvir.
A porta da sala dele estava entreaberta.
Aquilo já me deixou ainda mais irritada. Zayden nunca deixava nada à mostra. Sempre tudo fechado, organizado, controlado, como se ele precisasse que o mundo coubesse na caixa mental dele.
Mas agora… Agora parecia que nem ele sabia onde terminava e começava.
Empurrei a porta. Com tudo.
Ela bateu na parede com um estrondo que ecoou pelo andar. E eu nem pisquei.
Zayden se virou, sobressaltado.
Ele estava sem terno. Só a camisa social, com as mangas enroladas até o cotovelo. Os primeiros botões abertos. O cabelo bagunçado, como se tivesse passado a mão mil vezes tentando lembrar como se respirava.
O pior? Ele ficou lindo assim. E eu odiei cada centímetro dessa constatação.
— Que porra foi aquela? — eu explodi, a voz tremendo de indignação pura. — O que diabos você tinha na cabeça? O que exatamente te deu o direito de entrar no vestiário e me olhar daquele jeito?!
Ele abriu a boca. Fechou. Depois inspirou fundo como se precisasse de fôlego pra me enfrentar.
— Lianna… eu não entrei pra te olhar. Eu só… não sabia que você estava lá. Eu só entrei.
— AH, CLARO. — eu ri, histérica. — Você entrou no vestiário feminino do hospital mais movimentado de Genebra “sem querer”.
Ele cerrou o maxilar.

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