POV Zayden Cross
O som constante dos monitores cardíacos era irritante, repetitivo, quase tão sufocante quanto o peso do silêncio de Camille na maca.
O hospital cheirava a desinfetante e arrependimento.
Ela estava pálida. Pequena. Quase irreconhecível. A mulher que me desafiava em público, que falava alto e ria de tudo, agora mal conseguia respirar sem ajuda de uma máquina. Ironia do destino, o que mais a sustentava era o mesmo orgulho que um dia destruiu Lianna.
Eu estava de pé há horas, olhando o ponteiro do relógio girar, enquanto os médicos falavam sobre “complicações cardíacas”, “procedimentos delicados”, “cirurgia de alto risco”. Tudo o que ouvi foi: ela pode morrer.
— O que vocês precisam? — interrompi. — Dinheiro? Equipamentos? Eu pago o que for.
O médico respirou fundo, como quem escolhe as palavras com cuidado.
— Não é uma questão de dinheiro, senhor Cross. É de competência.
— Explique-se.
— Há apenas uma especialista no país com experiência suficiente para esse tipo de caso.
— Então contratem. — retruquei, impaciente. — Onde ela está?
— Está vindo de Genebra. Chama-se Dra. Lianna Aslan.
Por um instante, o nome me soou familiar. Um eco antigo. Mas logo ignorei. Havia muitas “Liannas” no mundo.
Horas depois, Camille acordou.
— Zay… — a voz dela soava fina, quase infantil. — Eu não quero morrer.
— Não vai. — garanti. — A melhor médica do país está vindo.
Mas quando o nome dela foi dito pela equipe, Camille arregalou os olhos, pálida
— Zayden… não. Não pode ser ela.
— Do que está falando?
— É ela, Zayden! É a sua mulher! — gritou, em desespero.
Antes que eu respondesse, a porta se abriu. O som dos saltos no chão estéril cortou o ar como uma sentença. E então ela apareceu.
Lianna.
De jaleco branco. Cabelos presos num coque impecável. Olhar frio, quase clínico. O coração me deu um soco no peito. Era ela. A mulher que eu havia quebrado e que agora parecia feita de ferro e gelo.
— Dra. Lianna Aslan. — apresentou-se, formal. — Sou a responsável pela cirurgia.
O mundo parou. Camille começou a chorar, tremendo.
— Zayden, eu não quero que essa mulher me toque! Ela vai me deixar morrer!
Lianna ergueu o olhar pela primeira vez. E, naquele instante, percebi: ela não me odiava. Não me amava. Não sentia absolutamente nada.
— Senhorita Camille — disse, calma —, o hospital me designou para o caso porque sou a única cirurgiã especializada na sua condição.
— Você quer se vingar! — Camille gritou. — Vai me punir!
— Eu não trago ressentimentos para a mesa de cirurgia. Só bisturis.
Silêncio. Até o bip do monitor pareceu hesitar. O diretor do hospital entrou, constrangido.
— Sr. Cross, precisamos da sua autorização. A Dra. Aslan é, de fato, a única opção.
Olhei para ela e a arrogância falou antes do bom senso.
— Não. Eu quero outro médico.
O diretor empalideceu.
— Senhor, com todo respeito, não há outro com a mesma experiência.
— Então arrume alguém. Pago o que for.
Antes que ele pudesse responder, uma voz feminina soou atrás de mim.


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